quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Corey Harris - Mississipi to Mali

Quem viu a série "The Blues" e mais concretamente o episódio realizado por Martin Scorsese, decerto se lembrará deste músico americano, dedicado aos blues e às suas mais profundas raízes. Quem tem seguido com a devida atenção o Festival Sons em Trânsito, recordar-se-á da sua presença na edição de 2006.
Este disco foi gravado por metades, repartidas entre o Mali e os Estados Unidos, aliás, como o seu genérico título sugere. Nele participaram músicos essenciais na cultura tradicional de cada um dos continentes.
É um som mágico que cruza essas culturas, devolvendo às origens a base do blues e recebendo de lá experiências perenes que se renovam. Imaginem Lightnin' Hopkins tocando e cantando sob qualquer sombra da savana africana. É mais ou menos esse encanto que este trabalho nos proporciona.

Mississipi

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Renata Rosa - Zunido da Mata

Cantora, tocadora de rabeca (violino rural), compositora e porta-bandeira do património cultural e musical do nordeste brasileiro, entre a mata e o mar. É nessa e dessa propriedade popular que Renata idealiza e faz medrar a sua música. Consolidada nos ritmos, parte fundamental da cultura afro-brasileira, e nos cantos caboclos da região, integra depois as cordas da rabeca, do violão e da bandola que completam a harmonia final.
Este é o seu cd de estreia, onde também há lugar para metais e para o meu amigo Roberto Manoel dar um ar da sua graça, tocando a sua trompete piccolo. Robertinho integra o grupo Siba e A Fuloresta, os tais que os meus vizinhos não vão esquecer depois daquele serão de churrasco e maracatú, no logradouro da minha casa, no verão passado.
Um disco luminoso, vibrante e deliciosamente ingénuo que nos lembra ou revela uma outra música brasileira que não o samba ou a bossa nova, mais rural, mais suburbana, mas não menos importante e bem bonita.

Zunido

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Galandum Galundaina - Modas I Anzonas

, Cantigas e engenhocas, é, traduzindo do mirandês para o português, este excelente trabalho dos Ganlandum Galundaina que tem como valor primeiro o de salvaguardar o património musical deste país que tanto se esquece de o fazer. Usam réplicas dos instrumentos antigos, tais como a gaita de fole mirandesa, a flauta pastoril, a sanfona, a caixa de guerra, as conchas de Santiago (Compostela), as castanholas, pairando na fronteira ténue entre Portugal e Espanha.
Trata-se de um núcleo familiar que se reuniu com amigos e partilhando dos mesmos interesses musicais e culturais, puseram o projecto em marcha, já lá vão doze anos.
Quem já sabe algo de mim, reconhece que sou um entusiasta dos encontros da tradição com a modernidade. Este é um caso de pura tradição e um feliz exemplo de que o correr dos tempos vem demonstrar a modernidade de certos valores, neste caso sons, que nunca se perdem, antes se apuram.

Modas i Anzonas

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Kathryn Tickell & Friends - The Northumberland Collection

Sempre reparei nas críticas e referências aos trabalhos desta gaiteira, mesmo em tempos em que não dedicava maior e melhor atenção às músicas de outros mundos. Causa-me alguma raiva e vasta desconfortabilidade, neste caso e noutros com que me deparei e não parei, ter passado em branco sem espevitar a curiosidade auditiva que hoje é constante do meu universo vivente.
É sem dúvida uma magnífica tocadora das pequenas "northumbrian pipes", assim como do violino e da viola. Não sei se decalco o que outrora li, mas a sua forma encantatória de execução é sensual, delicada, que se não soubermos e atentos formos, logo diremos que uma formosa mulher move os dedos na gaita, aperta o fole no seu flanco e acrescenta corpo e alma ao instrumento, como se duma extensão sua se tratasse.
Northumbria é uma região do extremo norte da Inglaterra, fronteira com a Escócia, onde Kathryn nasceu e começou a tocar, ainda criança.
Não há lugar para o "mainstream" neste disco. São tradicionais da sua terra natal a que juntou um original seu. Já com uma dezena de anos, pela sua natureza é, contudo, uma obra intemporal.
A amostra que vos deixo na Caixinha de Música, tem como únicos protagonistas a própria Kathryn e Sean Barry na harpa celta. Os outros amigos estão espalhados pelas quinze faixas deste belíssimo disco.

K T & Friends

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Ao fim de um ano de actividade e com mais de 11.000 visitantes, O Melonauta pode afirmar que os seus propósitos foram alcançados e suplantados até. Quero agradecer a todos que me ajudaram a pôr este blogue a funcionar, aos que me confiaram as suas opiniões e a todos que pelo Mundo fora me vieram visitar. Vou continuar a trilhar os caminhos que conduzem aos surpreendentes paraísos sonoros e deixar pistas para quem os quiser seguir.

Sandy Lopicic Orkestar - Balkea

Esta é uma banda de metais, mas não só. Incorpora vozes, cordas, aerófonos, madeiras e percussões. Resulta da união de músicos provenientes da desmembrada Jugoslávia que se instalaram em Berlim e fizeram da Alemanha o seu abrigo de exílio. Juntaram-se sérvios, bósnios, kosovares, austríacos e eslovenos e daí emanou um cozinhado de sons marcadamente oriundos dos Balcãs, com pitadas teutónicas, vozes búlgaras e marinhados em jazz acidulante.
Aqui se prova que o que os estupores desfazem com a guerra, ferindo de ignomínia o sentir profundo dos povos, a música conserta e une, em harmonia e afectos.
Um disco imperdível, empolgante, ora festivo, ora frágil, que me fez ir em busca de mais...

Balkea

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Ildo Lobo - Nós Morna

Na época em que se vivia o estoiro do pop-rock feito em Portugal, passava nas rádios um grupo de fusão chamado "Os Tubarões", cujo álbum "Tabanca" foi sucesso de vendas. Ildo era o seu vocalista. A banda manteve-se em actividade desde 1976 a 1994. Mas dois anos depois Ildo grava este disco soberbo, onde se entrega de alma e coração.
Ele é a voz da Morna, ele é a Morna! Ele interpreta como ninguém, com o seu canto expressivo e cálido, a dolência e o gemido desta forma musical de Cabo Verde.
Ildo Lobo é um daqueles músicos que nos entram pelos sentidos adentro, sem qualquer licença, e nos arrepia com a sua arte.
Nascido no mesmo ano em que eu nasci, pregou-nos a partida de ir embora mais cedo do que a sua imensa vontade de viver pedia. Esta é uma pequena forma de lhe dedicar o meu humilde tributo.
Descobri há bem pouco que, paralelamente, exercia uma actividade profissional similar à minha. Coincidências...

Ildo

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Trio Bulgarka - The Forest Is Crying

Ficaram com proeminente reconhecimento pela sua participação no marco da world music, Le Mystere des Voix Bulgares. Oriundas de várias regiões da Bulgária, conseguiram unificar as sonoridades características de cada uma delas e criar um som próprio e encantatório. Foi a sua aparição junto de personalidades como Kate Bush, ou a referência à sua música pelo beatle George Harrison, que me despertaram para este disco. Vi-as e ouvi-as há já quase vinte anos, num programa de televisão e fiquei estarrecido, magnificamente estarrecido!
Pelo que sei, e já com uma idadezinha muito apreciável, ainda vão andando cantando e em 2007 chegaram a actuar com os Trans Global Undergrond.
Para quem, como eu, é apaixonado pela música coral, vai com certeza ficar seduzido pelas polifonias, pelo cromatismo dessas vozes de excepção e pelas melodias que interpretam.

Trio

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Four Men & A Dog - Shifting Gravel

Esta banda irlandesa que teve o seu maior reconhecimento na década pretérita, continua em actividade e lançando novos trabalhos em disco, mas dela só conheço este álbum que aconselho vivamente. Não é uma banda purista, na acepção da palavra, pois contamina as raízes da música irlandesa com sonoridades de bluegrass, country e algum mainstream, tendo também em alguns outros trabalhos, segundo o que li, abordado o jazz, a salsa e o rock. Bastante eclécticos, os rapazes. Para melhor entendimento convém ouvi-los e apreciar como conjugam em perfeição, guitarras e acordeões, violinos e banjos, pianos e percussões. Acrescentem um "pedal steel" e as vozes e o complexo sonora está pronto a ser servido.
Um Irish Coffee e um Bourbon, já agora...

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Vinicius Cantuária - Horse & Fish

Vinicius é um ilustre desconhecido que iniciou carreira na onda progressiva do rock, para alguns anos depois se interessar por vertentes menos óbvias, tendo optado por ir viver para os Estados Unidos. Foi por aí que se começou a embrenhar no Jazz e em cenas alternativas da música mais à frente. Trabalhou com Brian Eno, Laurie Anderson, Arto Lindsay, Bill Frisell, David Byrne e Ryuichi Sakamoto, entre outros. Nunca esqueceu as suas raízes e a prova disso é este disco onde mais de metade é dedicada à Bossa Nova. Não é um purista, claro, mas as novas roupagens com que veste a sua música só lhe emprestam um novo encanto.

Horse

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Kékélé - Congo Life

Sabiam que existia a rumba congolesa? Congratulações, se sim. Se não, estão nas exactas condições em que me encontrava antes de ouvir este disco deveras surpreendente para quem julgava que a rumba só era cantada e dançada nas Caraíbas. Para quem gosta de música africana e para quem gosta da música que se ouve lá pelo meio dos furacões. Composto por músicos com grande experiência, com trinta e quarenta anos de carreira em separado que se juntaram para criar este supergrupo que nos brinda com uma mistura de primeira. Ouvir os instrumentos e os sons peculiares dos dois extremos do Atlântico torna-se uma experiência deliciosa. Mas é rumba, disso não há a menor dúvida!
Congo Life

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

José Mário Branco - Resistir é vencer

Desde que o conheço, desde "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades" de 1971, que o guardo como uma das minhas referências no plano da concepção artística e dos arranjos que faz para a sua música e para a dos outros. A figura romântica de lutador e resistente aos ditames retro-sociais e hipócritas também me fascina de alguma maneira.
No período pré 25 de Abril de 1974, ao lado de Fausto Bordalo Dias, Sérgio Godinho e claro, José Afonso, foi um dos pilares que me suportou junto à música portuguesa, quando grande parte da juventude da época se alinhava pela música anglo-americana.
Um dos melhores discos de 2004, obra maior e imperialmente ignorada pelos media, como aliás é o hábito inditoso a que estamos destinados.
A dedicatória por ele inserida no disco é bem o retrato da sua personalidade:
- "O título RESISTIR É VENCER, lema da luta do povo de Timor-Leste durante a sua resistência de 25 anos ao exército indonésio, foi escolhido à luz da percepção, adquirida durante uma estadia nesse novo país, de que ele ultrapassa, e muito, a mera palavra de ordem política. É um lema ético que assenta bem àqueles que, sendo poetas ou criadores artísticos, travam uma luta dura, desigual e ininterrupta contra os seus próprios limites e os do mundo que os rodeia. É porque a história, o discurso e o coração dos resistentes timorenses me ensinou isto que eu lhes dedico este álbum de canções."

Resistir

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Tuxedomoon - Cabin In The Sky

Banda americana com quase 30 anos de existência, com menores e maiores hiatos e actividades paralelas dos seus componentes. Saídos da cena pós-punk e new have, sempre se propuseram navegar por vários quadrantes, da pop ao jazz de fusão, do experimentalismo electrónico às performances multi-disciplinares ao vivo.
Assisti ao concerto de lançamento deste disco e para quem como eu desconhecia o trabalho do grupo, foi uma grata e deslumbrante surpresa. Ambiência, sonoridade, luz, côr, movimento plástico em doses de inequívoca elegância e experimentação.
Diferente e absorvente!

Cabin

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Lura - Di Korpu Ku Alma

Depois das sempre curtas férias, o retorno aos trabalhos...
Uma portuguesa, nascida em Lisboa de pais de Santiago, cantando Cabo Verde sem ter lá vivido, utilizando um dialecto como se fosse a sua língua natal.
Maioritariamente repartido por Lura e Orlando Pantera nas composições e por músicos conterrâneos nos vários instrumentos, revela-se um disco luminoso, fresco e de embalo contagiante que retrata bem o país que adoptou para expressar a sua musicalidade.
Por altura do seu lançamento, tive a oportunidade de ver uma entrevista sua na televisão, ainda desconhecedor da sua arte, e fiquei inquieto na sua busca. Um pouco mais tarde, sofri um revés na sua apreciação ao vislumbrá-la de passagem num episódio dos inenarráveis "Morangos com açúcar", mas pelos vistos tratou-se apenas de um pequeno e lamentável acidente, depressa remediado...
Tal como o título diz, este é um disco feito com muita alma, em que amiúde o corpo não resiste.

Lura

quarta-feira, 13 de agosto de 2008


ENCERRADO PARA FÉRIAS


sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Ani DiFranco - Evolve

Em 1999, Ani editou três álbuns, um deles em parceria com Utah Phillips, e todos sujeitos a apreciações abonatórias da crítica. Desconhecida para mim, logo tratei de procurar abeirar-me dos seus então mais recentes trabalhos e iniciei-me com To The Teeth. Andava eu, por essa altura, a navegar na Indie e na alternativa e aquilo veio na hora certa.
Peculiar, persistente e produtiva, são adjectivações que se lhe colam na perfeição.
Cedo se ligou às causas feministas com ardente empenho e as suas canções são um espelho disso mesmo. Por elas passam temas como o aborto ou a violação e sem mostrar estandarte, Ani nunca escondeu a sua bissexualidade.
Criou a sua própria editora, foi nela que lançou o seu primeiro disco em 1990 e desta forma independente se manteve até hoje.
A sua voz é versátil e colocadíssima, capaz de articular sem atropelar. A sua forma de tocar guitarra é distinta e baseada no fingerpicking, com harmonias ora céleres, ora delicadas e a sua música poderá definir-se como folk-rock alternativo.
Este seu disco é muito jazzy, funky e considero ser uma óptima montra das suas generosas capacidades. A amostra que vos deixo na minha Caixinha de Música, é o mais básico dela, voz e guitarra. Façam um pequeno exercício, imaginem a colocação sequencial de baixo, bateria, teclas, sopros e ficarão com uma produção própria a deambular na cabeça. Será que se harmonizará com a produção de Ani? Comparem!

Evolve

quarta-feira, 30 de julho de 2008

El Bicho - El Bicho

A par dos Ojos de Brujo, são das bandas mais atractivas no panorama vastíssimo da música dos nossos vizinhos espanhóis. Gente muito nova, mas com muito talento. Ostentam uma mescla de flamenco, rumbas, tangos, jazz, rock, pop e ritmos afro-latinos.
Ao vivo demonstram uma animação demolidora e mesmo algumas acrobacias algo exageradas do seu cantor e mestre-de-cerimónias, não chegam para deslustrar o brilhantismo do colectivo.
Para ouvir agora e ver na próxima oportunidade.

El Bicho

terça-feira, 29 de julho de 2008

Robert Wyatt - Cuckooland

Estamos perante um músico de árdua catalogação. Desde os anos 70, em que integrou os Soft Machine, banda que aliou o rock progressivo ao jazz, até aos nossos dias, Robert sempre manteve uma fértil e bem interessante carreira. Confinado, desde 1973, a uma cadeira de rodas, resultado de uma noite de excessos e a uma queda de um 3º andar, nem por isso a sua força de viver e de fazer música se desvaneceu. Continuou a tocar o seu instrumento, a bateria, apurou-se noutros, como o piano e a trompete, e compôs canções para quase uma quinzena de álbuns. Interessou-se por outras músicas e outras culturas, tocou com gente como Fred Frith, Mike Oldfield, Carla Bley, Phil Manzanera, Ryuichi Sakamoto, David Gilmour, Elvis Costello, Sting e Björk.
A sua música é de uma delicadeza atroz, simples e intrincada em simultâneo. E a sua voz de múltiplas oitavas é um desfiladeiro de emoção que parece querer transportar-nos ao seu âmago mais secreto.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Oumou Sangaré - Worotan

A grande embaixadora do Mali musical, lutadora pelos direitos da mulher africana, especialmente coarctados naquela região do mundo. Conjugando a dolência com o festejo, a amargura com a perseverança, misturando uma plêiade de músicos e instrumentos, atinge uma diversificada teia de ambientes, onde os djembe, os bolon e as cordas dão o mote. À sua vez, seguem-se sopros e percussões. E depois as vozes, em coros polifónicos de bonita e singela coadjuvação.
Oumou é também conhecida pelo "pássaro cantor de Wassoulou" (histórica região a Sul do rio Níger) e a sua música vai beber às fontes profundas das tradições e dos rituais de caça do seu povo.

Worotan

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Dervish - Spirit

Já com duas décadas de existência, os Dervish são uma das mais estimulantes e virtuosas bandas irlandesas. Basicamente dedicados aos tradicionais celtas, atrevem-se esporadicamente na composição e na reconversão de alguns temas de autor. Sinceramente, prefiro as suas interpretações bem urdidas e irrepreensíveis dos primeiros. É aí que o grupo se movimenta como peixe na água e nos presenteia com pedaços brilhantes da tradição.
A capa parece um outdoor publicitário de um destino turístico, mas o conteúdo, acreditem, é bem melhor.
Estiveram recentemente em Coimbra, como atracção, no festival Eurofolk'J. Quem lá esteve e assistiu pode e deve dizer aqui de sua justiça. O infotório agradece!

Spirit

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Sigur Rós - Ágaetis Byrjun

A uma primeira audição, em fonte medíocre, com atenção dispersa mas suficientemente desperta, juntei as crónicas elogiosas da época e adquiri este cd para então, com total disponibilidade, nele me embrenhar.
Uma autêntica aventura nos confins dos gélidos mares!
Ainda hoje e sempre que o oiço, a pele se me arrepia, não de frio, mas de pura emoção.
Aconselho, a quem nunca o fez, a ouvir estas e outras músicas na penumbra ou no breu e libertar corpo e alma à corrente dos sons. Não vai ser difícil seguir pelos desertos gelados e pelo mar à volta da recôndita ilha. Lá encontrarão os ventos cortantes do deserto branco e o gotejar dos glaciares.
Uma obra-prima e um dos discos da minha vida!
Não será esta a soul branca?

Agaetis

domingo, 13 de julho de 2008

Natacha Atlas - Ayeshteni

Natacha é mais um daqueles frutos da miscigenação cultural e das paixões que lhe estão intrínsecas. Nascida na Bélgica de mãe inglesa e de pai com derivados marroqionos, egípcios e judaico-palestinos, após a separação destes, passou a viver e crescer na Inglaterra. Cedo começou a pôr em prática as dádivas genéticas, e das incursões na música das caraíbas, às experiências com os Trans-Global Underground, onde se tornou a voz da frente, logo a sua linha de prumo se foi definindo. Aos 35 anos de idade casou com o músico sírio Abdullah Chhadeh e mais se estreitou a rota entre o Oriente e o Ocidente.
Este álbum é um retrato disso mesmo, misturando as raízes de Natacha, as construídas e as herdadas, com as adquiridas na sua vivência europeia.
Esteve em Portugal, no ano passado, na Casa da Música do Porto, mas infelizmente não pude assistir ao concerto. Resta-me o prazer de a ouvir em disco e de a divulgar a quem não a conhece.

Ayeshteni

domingo, 6 de julho de 2008

Buena Vista Social Club Presents: Omara Portuondo

Não foi por negligência, nem por falta de motivação que demorei na actualização do blogue. Este inusitado e involuntário hiato, deveu-se a uma indisponibilidade do tempo de que necessito para manobrar todas as operações exigidas. As informáticas e as cerebrais.
Volto com esta Senhora, verdadeira diva e uma sobrevivente do Buena Vista Social Club. Dispenso as apresentações, pois suponho que um pouco mais ou um pouco menos, já a tenham ouvido. Este é um disco onde preponderam os boleros, pelo meio de outras canções cubanas e até de Gershwin.
Tive ocasião de a ver e ouvir, na sua única passagem por estas terras e foi das noites musicais mais comoventes da minha vida, fruto de uma prestação eivada de um dramatismo que só ocorre algumas vezes e que afecta totalmente um artista.
E como já vai sendo hábito, mais um mojito e outra corona gorda...

Omara

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Susheela Raman - Love trap

Normalmente levo as memórias ao sabor da pena, em devoto silêncio e ganhei a mania de julgar que as lembranças não se perdem, no seu essencial. Mas algumas perdem-se! Quando ouvi este CD pela primeira vez, sei-o agora que estou a revisitá-lo enquanto alinhavo estas letras, não guardei devidamente partes fulcrais com que agora me delicio. Ouço os sons do canto da garganta (throat-singing asiático) e não me recordo de os ter escutado na primeira abordagem. E há ainda outros mares e outros continentes que regressam aos meus ouvidos. A base, essa está intacta, a ponte que leva o ocidente à Índia e o traz de volta, essa mantive-a desde a primeira audição e o muito agradável concerto que dela vi. Foi com fluida versatilidade que encantou, cantando tradicionais indianos, Joan Armatrading ou Tim Buckley.
Vale a pena conhecer esta inglesa, descendente de pais Tamil, dona de uma sensualidade esquiva, de gosto irrepreensível, sempre rodeada de músicos superiores de todo o mundo.
O resultado está disponível para quem quiser ouvir!

Love Trap

domingo, 15 de junho de 2008

Kimmo Pohjonen - Kluster

Se no caso de Cibelle já tinha uma pequena referência que me permitia conjecturar sobre os seus préstimos, de Kimmo apenas sabia que vinha da Finlândia, tocava acordeão e que os seus espectáculos eram de imprevisível duração, chegando a prolongar-se por quatro e cinco horas!
O primeiro contacto foi só...fabuloso e inesquecível!
Homem, acordeão e microfone, fundidos numa mola sonora que vai esticando e contraindo, do estampido ao sussurro. Ao lado, outro homem, Samuli Kosminen, percussionista electrónico, manipulador de todo o som que Kimmo lhe vai doando. Depois é o cenário e a coreografia luminosa de cores de fornalha, e mais aquele vulto que se levanta e senta, se dobra, cai sobre os joelhos, se deita, rebola, rasteja e permanece, rosto para além do cimo, da teia, do telhado, das nuvens pesadas que fecham o céu de Outono, abraçado ao fole teclado de botões, nunca lhe dando tréguas.
O espectáculo não durou mais de hora e meia, contrariando os mais optimistas. No dia seguinte soube que magoara um pé e que teria acabado o concerto em grande sofrimento. Quem diria!
Nem sei definir a sua música com exactidão. Pensem em folk escandinavo, rock do duro, improvisação, avant-garde, e muita, muita experimentação. Depois, é só deitar no shaker...

Kluster

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Cibelle - Cibelle

Fui ver um concerto desta menina paulista sem ter ouvido uma única nota mais, para além de um tema deste seu primeiro CD que esporadicamente passava na rádio. Nem sequer lhe conhecia o rosto. Diria que estava perante uma quase desconhecida a quem, timidamente, estava prestes a abrir a porta. E de repente a ombreira se escancarou e a torrente foi invadindo sem pedir licença. Percussões e programações, cuícas e samplings, pandeiros e loops, gira-discos e vozes. Pelo meio, vinham sons de guitarras, melódica, Clavinet, Mellotron, Rhodes, trombone, Wurlitzer, uns tratados e outros singelos. Depois, foi seguir os trilhos e acompanhá-la pelo Jazz, pela Bossa Nova, pela MPB e ouvir como Jobim, por um lado, e a electrónica por outro, nos levaram a passeio por entre as 11 faixas que integram o registo.
Cibelle compõe, toca vários instrumentos, produz e nos oferece em voz bilingue, a sua primeira viagem no mundo discográfico.
E a novata menina se revela um mulherão...em todos os sentidos!!!

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Eliza Carthy - Anglicana

Comigo a música funciona assim: ouço, gosto, reservo e mais cedo ou mais tarde, ou por lembrança, ou por associação a um qualquer estímulo, volto a querer ouvir com anseio. Passo anos sem repetir uma audição, mas a todo o momento a memória acende-se. Falei de Eliza Carthy a propósito do post anterior e o reflexo pavloviano irrompeu do nada.
Herdeira de um património de luxo, filha de dois lendários músicos da folk britânica, Martin Carthy e Norma Waterson, não desperdiçou o acaso e partindo desses e com esses legados, encetou uma bonita carreira, cantando e tocando violino e piano.
Este disco celebra o retorno às raízes profundas de que nunca se soltou verdadeiramente, depois de várias experiências à volta do folk-rock e de naturais processos de maturação. Um trabalho inspirado, inteligentemente elaborado e misturando em doses apuradas, a recriação própria com as virtudes da família de novo reunida. O resultado revela-se uma delícia para os sentidos visados.

Anglicana

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Billy Bragg And Wilco - Mermaid Avenue

Da reunião entre o inglês Billy Bragg e a banda norte-americana Wilco, resultou este disco assaz interessante, realizado a partir de algum espólio deixado por Woody Guthrie e nunca antes editado. Assim do velho se fez novo e do passado, modernidade.
Confesso que quando comecei este projecto não tinha intenções de dedicar grande espaço à música anglo-americana, por demais divulgada. Com a revisita às minhas prateleiras, tomei consciência de que há muitas obras que são desconhecidas pela maioria e que são parte da verdadeira essência das culturas que representam. Decidi que não seria justo para comigo deixar estas e outras memórias distraídas ou apagadas.
De regresso ao CD, direi que os protagonistas se rodearam de gente de valor e estatuto reconhecido. Natalie Merchant (10.000 Maniacs, lembram-se?), Eliza Carthy (Waterson: Carthy, conhecem?) e Corey Harris (The Blues, episódio realizado por Martin Scorsese e Sons em Trânsito/05, viram?).
Com o aval deste vosso modesto servidor, embrenhem-se nesta América profunda que, embora baseada em negativos a preto e branco, se revela em cores vivas!

Mermaid Avenue

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Lucinda Williams - Car Wheels On A Gravel Road

Quando na minha apresentação acerto que vou sugerir alguma música de todos os cantos da Terra, não pretendo prescindir, por algum mesquinho preconceito, de nenhum lugar ou de nenhuma cultura. Logo, não há razão alguma para deixar de lado os gigantes anglo-americanos, já que no meio de tanto lixo editorial, existem sempre pérolas enclausuradas nas suas conchas. Lucinda, embora liberta dessa reclusão, continua uma quase desconhecida por esse mundo fora e nem alguns prémios da máquina comercial a levaram ao reconhecimento justo dos seus compatriotas.
Exigência, subtileza de estilo e muita coerência, são condições e alicerces sólidos para a sua obra de quase trinta anos, exibida em apenas oito álbuns de originais. Este é o seu disco mais mainstream e que mais êxito obteve, o que não significa ser um trabalho menor, antes pelo contrário. Chamem-lhe country alternativo, country-rock ou o que bem aprouverem, isto é boa música americana e pode emparceirar com o melhor de Johnny Cash ou Steve Earle, na rudeza e na beleza!

Car Wheels

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Susana Baca - Espíritu Vivo

Este CD tem uma pequena história por detrás, que me me deixou uma terna e indelével marca. A minha Lia, adoradíssima filhota, acabara de entrar no ensino primário e cabia-me a tarefa quotidiana de a levar matinalmente à escola. (Já referi aqui que por essa altura a TSF tinha uma programação musical associada às notícias, da melhor que se praticou neste país.) Uma canção despertou um interesse mútuo, enquanto seguíamos viagem e escutávamos o auto-rádio. Espontaneamente e de altíssima voz, em uníssono, acompanhávamos Susana Baca e o seu Toro Mata. Isto repetiu-se por várias manhãs. Passado pouco tempo, a cantora esteve em Aveiro e a Lia assistiu pela primeira vez a um concerto musical. Teria assistido...se, devido ao tardio da hora e ao cansaço da ginástica rítmica, não tivesse adormecido à segunda música. Valeu que o concerto começou com o...Toro Mata!
Espíritu Vivo tem o tradicional peruano, a abordagem muito pessoal a canções da grande Chabuca, a Caetano Veloso e à sua negritude, ao clássico Les Feuilles Mortes de Jacques Prevert e à pequena maravilha que é The Anchor Song da minha muito querida Bjork.
Uma exortação à vida e aos recônditos das harmonias, gravado em Nova Iorque na semana do 11 de Setembro...

Espíritu Vivo