quinta-feira, 24 de junho de 2010

Huong Thanh - Dragonfly


Os mais assíduos visitantes já deverão ter reparado que entrei numa fase de retorno a obras já aqui por mim trazidas, embora sem as ter disponibilizado na íntegra. Espero desta feita contribuir para uma apreciação mais concreta desses trabalhos que mereceram a minha atenção em passado recente e que continuam a fazer parte da minha pasta de favoritos.
Este CD de Huong Thanh apareceu-me em corrente. Andava a ouvir Richard Bona, puxei um bocadinho pelo fio, trazia Dhafer Youssef, depois Nguyên Lê, mais um pouco içado e revela-se-me esta vietnamita desconhecida. São correntes preciosas com invulgares ornamentos para os sentidos.
Na Minha Caixinha de Música (Juke Box) deixo uma amostra do dueto Bona/Thanh e dos sons que os embalam.

Dragonfly

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Dhafer Youssef - Electric Sufi


Não tenho muito mais a acrescentar aos breves comentários que fiz da primeira vez que abordei o autor e a obra.
Continuo a procurar este disco para audição, o que não é coisa que faça com muitos outros, significando que há sempre uma expectativa latente em ir ao encontro de paisagens sonoras que não foram totalmente contempladas.
Uma boa escolha para nos acompanhar nas noites quentes de estio (imaginem-nas...), ou em frente duma lareira inverniça. Em suma, para ouvir sempre!

Electric

terça-feira, 25 de maio de 2010

António Chainho - A Guitarra E Outras Mulheres

Chainho, para alguns o "mestre", para outros um "invasor" das tradições fadistas, lançou este álbum em 1998, ainda a chamada "World Music" titubeava no panorama musical das grandes massas.
Para este virtuoso da guitarra portuguesa não bastou o engenho, enfrentando as mutações constantes da arte, sempre reconfigurada no tempo e nas vontades. Estas coisas não se fazem de forma isolada, existem sempre as fontes de inspiração e o trabalho paralelo de outros artistas e técnicos contemporâneos. Para a realização deste CD, várias associações foram feitas, com instrumentistas, cantoras e músicos de várias origens. Podem anotar Fernando Alvim na viola, Vinícius Cantuária na guitarra de 7 cordas, pandeiro e percussões, Greg Cohen no contrabaixo e arranjos, Charlie Giordano no acordeão e as cantoras de língua portuguesa Elba Ramalho, Marta Dias, Nina Miranda, Filipa Pais, Sofia Varela e Teresa Salgueiro.
Para ilustrar este post deixo, na "Minha Caixinha", uma amostra do resultado de algumas dessas misturas. Indeciso na mulher a escolher, optei por incluir aquela que ele mais abraça: a guitarra!

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Richard Bona - Munia: The Tale

Nascido Bona Pinder Yayumayalolo, este camaronês distinto cedo demonstrou as suas aptidões para o fascínio das artes musicais. Logo em criança começou destramente a tocar balafon, instrumento idiofone de origem africana, tendo construído a sua primeira guitarra com recurso a cabos de aço de travões de bicicleta. Umas belas e fortes cordas que não deveriam deixar os mimosos dedos em muito bom estado...
Foi na igreja e no seio familiar que Bona deu os primeiros passos da sua carreira. Cedo também reconheceu que era totalmente limitativo o lugar onde vivia, confrontado com o impulso a que desejava dar asas.
A audição de Jaco Pastorius veio a tornar-se determinante para o seu futuro e para o percurso a partir daí encetado. Partiu para Paris, onde se dedicou ao estudo musical durante sete anos, tendo em simultâneo colaborado com vários músicos, tais como Didier Lockwood, Marc Ducret, Manu Dibango ou Salif Keita.
Insaciável na procura de conhecimento e na aprendizagem do jazz, parte para Nova Iorque e por lá vai esbanjando os seus talentos a par de Larry Coryell, Steve Gadd, Pat Metheney, Georges Benson, Bobby McFerrin, Brandford Marsalis e muitos outros.
Este seu disco é um composto de todas as suas vivências, desde o berço até aos clubes de jazz e aos palcos dos grandes festivais.
O trecho que escolhi e coloquei na Caixinha de Música é exemplo disso mesmo. Está lá tudo, o jazz, o seu folclore natal, algum pop-rock escorreito, muita fusão e sempre executados com uma flutuante elegância.

Munia

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Pietra Montecorvino - Napoli Mediterranea

Este é um disco de canções napolitanas, algumas delas sobejamente conhecidas, trauteadas e que moram nas lembranças dos que já contam mais de quarenta anos de idade. Ouvimo-las cantadas por Peppino Di Capri, Claudio Villa, Renato Carosone ou mesmo por Caruso e Pavarotti. O Sole Mio ficou célebre na voz de Elvis Presley e com troca para It's Now Or Never.
O grande trunfo de Pietra e de quem a produziu, foi o de pegar em canções estafadas e revigorá-las com roupagens do outro lado do Mediterrâneo. Há uma alma rouca e sentida à mistura com ecos árabes.
Esta foi a primeira vez que sobre este disco falei.
É pena que Pietra não se firme em qualidade perene, objectiva e se perca, por vezes, por paragens duvidosas. Esta inconstância não a faz perder o brilho que remanesce de toda a sua carreira, mas impede-a de granjear maior notoriedade.

Pietra

terça-feira, 30 de março de 2010

Flor Amorosa - Flor Amorosa

Alice, Vanessa, Andrea, Anna Maria e Dudáh, duas vozes soprano, duas meio-soprano e uma pianista, arranjadora e directora musical. São estas as "atrevidas" que um dia decidiram meter a foice em seara de chorões, designação dada aos que compõem e tocam o choro brasileiro, vulgo chamado de chorinho e que já tem uma provecta idade acima do século.
Este género musical esteve quase em exclusividade dominado por homens e poucas mulheres se atreveram a mexer nos padrões que o regiam.
O chorinho sempre foi baseado nos instrumentos de corda, flauta e pandeiro. Aqui, as vozes educadas, são acompanhadas ao piano, proporcionando a descoberta de que os limites do chorinho são bem mais vastos e a sua riqueza incontável.
As cinco senhoras revisitam clássicos como Tico-tico no fubá de Zequinha de Abreu, Brasileirinho de Waldir Azevedo, Odeon de Ernesto Nazareth, um dos mais importantes compositores de choro e Flor Amorosa, que inspirou o nome do grupo e é da autoria daquele a quem é atribuída a sua origem, Joaquim Calado.
O chorinho não é triste por natureza, mas pode fazer chorar, aliás como muita música que nos toca bem fundo nas emoções.

Flor

sexta-feira, 19 de março de 2010

Hazmat Modine - Bahamut

Há músicas que logo aos primeiros acordes me fazem desencadear uma série de emoções que podem ir do bater do pé, ao especar atento, ou, em esporádicas situações, do soltar do arrepio. A música destes senhores teve o condão de me fazer suster os labores da hora para lhes dedicar toda a minha atenção e disponibilizar à surpresa sonora que aos poucos me invadia. Não é frequente deparar com um agrupamento de instrumentos tão heterogéneo, onde se incluem harmónicas, tuba, trompete ou fliscorne, sax, duduk (sopro milenar de origem leste europeia e médio oriente), guitarras eléctricas, guitarras havainas e steel, bateria e doshpulur (um "banjo" tuviano), mais uma voz soando a Tom Waitts. Com essa amálgama de timbres e de origens debitam um estimulante jorro sinfónico a que não podemos restar apáticos.
Estes nova-iorquinos brincam a sério e através de influências do blues, do jazz, do reggae, do klezmer, do country e da música cigana, atingem as nossas expectativas com um swing transbordante.
Apareceram-me pela frente quando andava à descoberta do canto da garganta tuviano e fui surpreendido pela sua utilização em algumas partes do disco. Foi a cereja no cimo do bolo!
Já estiveram em Portugal e felizões deverão ter sido aqueles que tiveram o ensejo de assistir às suas prestações ao vivo.
Aqui está a minha primeira referência à descoberta.

Bahamut

terça-feira, 2 de março de 2010

Sainkho Namtchylak - Time Out (Seven Songs For Tuva)

Estamos perante uma cantora de definição intrincada, pela variedade das suas interpretações, pelas vertentes díspares que explora e pelo experimentalismo que lhe está sempre associado.
Nascida em Tuva, extremo sul da Sibéria, iniciou-se pelo tradicional canto da garganta, percorrendo, até à data, percursos de jazz, electrónica, música ocidental, sempre com as bases no Leste e na Ásia Central.
Senhora de formação muiscal superior, trabalhou na Moscow State Simphony Orchestra, em vários grupos de jazz e de música folclórica da sua região natal.
Filha de nómadas, ela própria é uma errante dos sons que povoam os seus discos e as suas performances.
Dotada de voz ímpar e com a capacidade que lhe é atribuída de a estender por sete (!?!?) oitavas, é uma vocalista de conhecimento obrigatório. Depois pode-se gostar, ou não.
Actuou em Portugal e em Aveiro no ano de 2002, onde passeou as suas imensas virtudes e algum mau feitio, diga-se de passagem. Não tive ocasião de assistir ao seu concerto e vim a conhecê-la neste seu trabalho que no conjunto da sua obra se pode considerar acessível.

Time Out

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Inti-Illimani - Andadas

Um grupo que é uma verdadeira instituição e que encontra paralelo em Cuba com a Orquesta Aragon, ou com os Chieftains na Irlanda. Contemporâneos de Victor Jara e influenciados pela nova abordagem da música tradicional chilena, da qual um dos nomes maiores é Violeta Parra, formam-se em 1967, editando os primeiros discos no ano seguinte. Depressa ganham estatuto e tornam-se aliados culturais do regime de Salvador Allende. O reconhecimento internacional chega logo a seguir e os concertos pela América Latina e pela Europa também. O golpe militar de 1973, liderado por essa figura sinistra chamada Pinochet, apoiado pelos americanos, derruba o sistema democrático e aniquila o presidente. Por essa ocasião andam em tournée pela Europa, e sem possibilidade de voltar a casa a salvo de represálias, decidem residir em Roma e aí continuar a sua carreira. Após quinze longos anos de exílio, regressam ao Chile em Setembro de 1988, onde são recebidos apoteoticamente no aeroporto de Santiago, por uma multidão que entoa as suas canções e o hino nacional.
A união durou até 2005, até que irresolúveis divergências musicais e estratégicas levam à cisão do grupo. Por resolução judicial são impedidos de usar o nome original e nascem assim os Inti-Illimani Histórico e os Inti-Illimani Nuevo. As propostas divergem mas ambas mantêm qualidade e respeito pelo passado comum.
Em Andadas ainda podemos ouvir a voz emblemática de Max Berru, co-fundador do grupo e que viria a retirar-se em 1997. Música chilena com saibos latinos vizinhos que se prolongam até ao México.

Andadas

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Oi Va Voi - Laughter Through Tears

Uma das grandes virtudes da pop actual é que franqueou as suas alas e deixou-se imbuir das sonoridades escondidas, reveladas pela magnífica globalidade da divulgação e da procura. Ao contrário de outras correntes musicais que se mantiveram dentro das suas rígidas fronteiras e com pouca disponibilidade para aventuras, a pop penetrou noutras áreas, buscou motivos e ofereceu a sua eterna juventude.
Esta banda londrina soube fazer essa junção de forma escorreita, partindo da influência judaica e da música klezmer, proveniências latentes de alguns dos seus elementos, e distribuindo esses sinais pela eminente e transversal pop que constroem.
Num grande misturador, coloque-se rock, dance, trip-hop, klezmer, gypsy, Europa Central, Médio Oriente, electrónica, clarinetes, trompetes e violinos. Se isto não der para ter uma ideia mais precisa, então é crucial ouvi-los e proceder à avaliação do resultado de todo este mistifório. Acreditem que vale bem a pena!
Foi por esta altura que os descobri...

L T Tears

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Amaro Del - Baro Than

Esta banda sérvia, sediada em Belgrado, é quase desconhecida na Europa. Para além de uma ou outra incursão no mercado de concertos em pequenos espaços na Áustria, Alemanha, Holanda e Suiça, as suas apresentações estão praticamente confinadas ao seu país e à Roménia. Estamos perante a música cigana tradicional, captada e arranjada por gente de gosto sensível e técnica invejável. Composta por Branislav Spasojevic, voz principal e líder, Milena Bozovic, contrabaixo e voz principal, Darko Zheheli, guitarra e coros, Marko Milovanovic, guitarra e coros, esta banda destaca-se pela beleza simples que produz. Em conversa netiana que mantive com Branislav, já lá vai um par de anos, este mostrou uma grande vontade de tocar em Portugal, pois apenas conhece Lisboa e por outros motivos. Já transmiti este seu desejo a um agente português, mas não é fácil apostar em bandas quase desconhecidas, ainda mais em tempo de crise. Vê-los e ouvi-los ao vivo, seria uma gratificante experiência, a juntar ao sempre ávido desejo de deparar com o diferente e com a fascinação.
Eis a primeira referência feita aqui por mim aos Amaro Del.

Baro Than

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Mônica Salmaso - Iaiá

Foi com Mônica Salmaso que aqui me iniciei nos comentários discográficos, tendo eleito este seu trabalho como um dos melhores que ouvi em 2007. Mônica é intérprete por excelência e exclusividade, dando um cunho particular e incisivo aos temas que escolhe para cantar. Tem feito a sensata e inteligente opção de se aliar a músicos e compositores de nível superior. Só para exemplificar posso acrescentar aqui os nomes de Edu Lobo, Guinga, Baden Powell, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Arnaldo Antunes, Naná Vasconcelos, Toninho Ferragutti ou Chico Buarque, mas muitos mais haveria.
Este foi um daqueles discos que entrou em mim duma assentada, tirando o fôlego, criando vontade de repetir e guardado sempre à mão. Aos temas de domínio público, juntou composições de Jobim, Jair do Cavaquinho, Buarque, Joyce, Caymmi, Tom Zé e outros, num harmonioso painel de música popular. Mônica, como sempre, faz-se acompanhar de um lote excepcional de instrumentistas que provocam, em ligação à sua voz única, uma fascinante viagem sónica pelo Brasil popular. Arranjos, harmonias, voz de afinação, colocação irrepreensíveis e timbre distinto, são razão directa para proporcionar uma obra destacada e bela.
A sua participação activa na Orquestra Jazz Sinfónica de São Paulo e na Orquestra Popular de Câmara, são mais duas grandes causas que abraçou em prol da música da sua terra. Devidamente reconhecida? Se calhar, não!

Iaiá

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

LHASA DE SELA


APENAS HOJE O SOUBE E GOSTARIA QUE NEM O SOUBESSE OU QUE DE UM TERRÍVEL EQUÍVOCO SE TRATASSE. MAS É A IRREMEDIÁVEL VERDADE E A PROFUNDA INJUSTIÇA. UMA DAS MINHAS MAIS QUERIDAS CANTORAS FALECEU NO DIA PRIMEIRO DE JANEIRO COM APENAS 37 ANOS...
RESTA-ME A LEMBRANÇA, ATÉ AO FIM DO MEU FIM, DE, NUMA NOITE ENCANTADA, A TER PODIDO ESCUTAR E VER, NAQUELE QUE TERÁ SIDO, PARA MIM, UM DOS MAIS BONITOS ESPECTÁCULOS DE SEMPRE.
LHASA, UMA VOZ IMORTAL!
Mais um ano de músicas ficou para trás, deixando na lembrança muitas audições, alguns concertos e firmando este projecto em que me lancei. Desejo e espero que 2010 continue a proporcionar-nos o ensejo de encontrar por esse mundo fora, formas musicais que nos mantenham despertos para uma paixão que faz parte da nossa vida e sem a qual não podemos viver. Falo por mim em forma plural, sabendo que muitos outros partilham deste ideal.
Um excelente ano para todos quantos me visitam, com muita felicidade e muita música para nosso encanto!

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Aldina Duarte - Apenas o Amor

Ouvir Aldina é quase como assistir e partilhar dum acto litúrgico, pelas palavras que nos exortam, pelas melodias clássicas revividas, pelos trinados comoventes e envolventes das cordas, pela voz sentida e crua. Uma certa mística paira no ar.
Aldina é tradição e aguçada modernidade, um passo resoluto de marco da História evolutiva do Fado, sempre com a referência do melhor passado na memória.
Como diz Carlos do Carmo no texto incluso na brochura que acompanha o CD, "Assim se faz um disco de fado que resulta conceptual e que deve ser ouvido com o respeito de quem gosta de aprender. Sim, porque do Fado sabemos pouco."
Para quem, como eu, que sabia do Fado Menor, do Mouraria e pouco mais, ouvir doze fados tradicionais e quase todos eles desconhecidos, foi uma grata e deslumbrante surpresa. Agora já sei da existência do Fado Solene, do Fado Tango ou do Fado Pedro Rodrigues de Quintilhas e posso decifrá-los na escuta.
Aldina é uma aluna do Fado e nossa Mestra na sempre aliciante aprendizagem desta nossa profunda e única expressão do toque e do canto.
Com este disco termino a revista feita à edição de 2006 do Festival Sons em Trânsito.

Apenas o Amor

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

René Aubry - Mémoires Du Futur

Eis um caso peculiar de um músico virado para conceitos intimistas, minimalistas e descritivos. Passou a maior parte da sua carreira escrevendo para outros actos artísticos, colaborando com, por exemplo, Pina Baush ou Phillipe Genty. Para além da dança e da criação teatral, a sua música foi também justaposta a diversos filmes. Não será difícil de comprovar a faceta cinematográfica das suas composições e associar imagens aos sons de René.
As palavras são diminutas, os instrumentos clássicos mesclam-se com as novas tecnologias, loops e programações, resultando numa paisagem bucólica feita banda sonora.
Às vezes, em conversas, inquirindo-me sobre certas descrições, pedem-me para referir a que etiqueta pertence esta ou aquela música. Muitas delas me sinto embaraçado, dada a prolífera teia de harmonias, orquestrações e influências. Normalmente, quanto maior a hesitação, melhor e valioso pedaço de arte estou a tentar definir.
E este é um caso bem embaraçoso...

Aubry

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Lo'Jo - Bazar Savant

Deste grupo sediado em França fazem parte europeus e africanos, o que, à partida, já dá para adivinhar com o que os nossos ouvidos se podem aprestar para acolher.
Quem diria que já deambulam pela cena musical há quase três décadas e que só há bem pouco lograram visibilidade notória?
Conheci-os em 2006, ano de lançamento deste disco, e fiquei seduzido desde logo pelo som e pela imagem que apresentam em palco. Denis Péan é o mestre de cerimónias e a sua desconcertante presença vocal e estética não pode deixar ninguém indiferente.
Uma ligação do Sul da Europa ao Norte de África, é a ponte que eles constroem e que nos convidam a atravessar.
Uma descoberta tardia mas em tempo. Nunca é tarde para dar de ouvidos com surpresas boas!

Bazar Savant

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Sara Tavares - Balancê

Este é um caso de êxito que confirma a excepção numa regra: a regular mediocridade dos concursos caça-talentos!?!? Sou um feroz inimigo e cáustico crítico dessa forma perversa de atracção de gente jovem, por vezes com alguma aptidão natural, e do seu aproveitamento torpe em busca de audiências. Diga-se, em louvor da verdade, que a "Chuva de Estrelas" que Sara venceu, era uma donzela quase pura em comparação com o devasso proxeneta que dá pelo nome de "Ídolos". Mas adiante...
Sara teve o grande mérito de tirar proveito duma pequena aventura que procurou e venceu, e alicerçando-se na sua voz, dom ingénito, foi, paulatinamente, construindo um objectivo bem firme. Não deverá a isso ser alheio o apoio e o aconselhamento que sabiamente lhe prestaram. E foi aprendendo, estudando, ouvindo, aperfeiçoando, que chegou a este estádio já bem evoluído, com promessa latente para próximos mais altos voos.
Portuguesa? Cabo-verdiana? Ambas e com orgulho nas duas condições, suponho.
Por este disco passa a negritude musical e até o fado, passa a maturidade daquela miúda de olhos grandes e bons que nos encantou quando ainda tinha 16 anos. Agora, não é só uma voz. Ela canta, compõe, toca vários instrumentos, produz e sabe estar no palco. Ainda relativamente às regras que refiro no meu preâmbulo mordaz, esta garota foi e é uma excepção!

Balancê

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Kepa Junquera - Hiri

Vamos então dizer deste músico/compositor, executante de trikitixa, pequeno acordeão diatónico basco e fazer um pequeno intróito à obra em título. Trata-se de um enfoque de lembranças retidas na memória do autor e recolhidas em diversas cidades do mundo. Logo, não será de estranhar que o disco esteja enfeitado com adornos de díspares origens, sendo todos os temas designados pelo nome da urbe glosada. É, no entanto, preponderante, para além da trikitixa, a sonoridade das txalapartas, instrumento de madeira, deslumbrante, que proporciona recreio invulgar a quem o toca e a quem o ouve. A txalaparta é uma peça ancestral que quase sofreu a extinção mas que em boa hora foi recuperada e viu a sua construção melhorada.
Kepa, ademais ser exímio instrumentista, é um afável comunicador que tem vindo a aprimorar o seu trabalho.
Estamos diante de uma festiva celebração musical, para a qual foram convidadas inúmeras ilustres personalidades, sendo nós aqueles que usufruimos do maior privilégio que é o de os escutarmos.

Hiri

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Debashish Battacharya And Bob Brozman - Mahima

As minhas próximas lucubrações serão dirigidas a alguns músicos que passaram por Aveiro, mostrando a sua arte durante a edição de 2006 do Festival Sons em Trânsito.
Debashish foi um deles, tendo-se apresentado em palco com as suas guitarras e o som mágico das tablas em junção. Considerado menino-prodígio desde tenra idade, é hoje um dos mais conceituados e brilhantes músicos indianos. Entregou-se às suas guitarras e quando digo suas, digo-o com propriedade, pois são concebidas por ele e quer tenham quatro, catorze ou vinte e quatro cordas, a maestria e a alma são constantes. O reconhecimento internacional mais visível chegou este ano ao ser nomeado para um Grammy, na categoria The Best Tradicional World Music Album. A sua simplicidade e simpatia concedem-lhe uma aura serena de bonomia e isso é-nos transmitido na plateia.
Bob é um americano do mundo. Linguista, antropólogo e etnomusicólogo, é um estudioso das slide guitars e uma pessoa profundamente empenhada na sua concepção. Seguidor de rotas migratórias e do cruzamento de sons e culturas, tem-se aproximado de músicos de todos os continentes e com eles desenvolvendo trabalho de monta. Numa próxima oportunidade cá o trarei de novo à liça com um outro disco imperdível feito a metades com o guineense Djeli Moussa Diawara.
Estes dois músicos superiores assim se juntam para dedilhar as suas slide guitars, indo da Índia ao Havai nas asas dum embalo em busca de perfeição. Sutapa, irmã de Debashish, empresta a voz e Bob assina a produção. Garanto a excepcionalidade destes sons únicos!

Mahima

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Ludovico Einaudi / Ballaké Sissoko - Diario Mali

Ludovico Einaudi é italiano, músico de formação clássica que entretanto se despegou dos modelos básicos da sua aprendizagem de composição e execução, embrenhando-se noutros conceitos e estéticas.
Aliando um olhar meditativo ao minimalismo algo pop das suas explorações, construiu, modelando, melodias simples de uma contemplativa elegância. Diversificou o seu trabalho e concebeu peças para multimédia, dança, tv e cinema.
Ballaké Sissoko é maliano e um dos mais conceituados e exímios tocadores de kora.
Filho de músico, desde muito cedo se integrou em grupos do mais imaculado e profundo folclore do seu país.
Encontraram-se neste cd e pelo mundo andaram em parceria, encantando audiências e demonstrando que toda a boa música se junta harmoniosamente, vinda ela de qualquer canto do mundo.
Foi esse torpor harmónico da simplicidade que senti quando assisti ao concerto deste duo singular, na edição de 2006 do saudoso Festival Sons em Trânsito.

Diario Mali

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Cheikh Lô - Lamp Fall

Podia começar assim: ouçam este disco que é fabuloso! E acabar assim.
Mas não consigo ficar-me por aí pois tenho referências pessoais que gostaria de partilhar. Logo me dirão se concordam com o que escrevo.
Cheikh é oriundo das raízes senegalesas do Mbalax, música de dança de ritmos desconcertantes e complexos. Podia quedar-se por lá, mas não o fez e ainda bem para os nossos sentidos. Em 1996 saiu do anonimato lançando o seu primeiro disco produzido por Youssou N'Dour, músico maior e bem conhecido no meio, adicionando já novos motivos e adornos aos ritmos sensuais e tradicionais.
Continuou a sua marcha de descoberta até 2006, ano em que apresentou este disco magnífico!
Vamos encontrar nele e à medida que nos vai sendo revelado, elementos da rumba congolesa (Kékélé, lembram-se?), da salsa, do reggae, do jazz, sempre com muito ar funky.
Foi parcialmente gravado na linda cidade de Salvador da Bahia e isso imprime novos cromáticos produzidos por berimbaus, surdos e uma sanfona que soa a tango. Na extensa plêiade de instrumentos encontramos ainda o piano, vários sopros, o sempre impressionante Hammond B-3, guitarras eléctricas, as talking drums, o cajon flamenco e a cítara. A meio do percurso podemos ser surpreendidos pelo espírito, vejam lá, de Ry Cooder em viagem por Cuba.
Uma obra a descobrir com urgência!

Lamp Fall

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Alterações

Devido a problemas surgidos com o hospedeiro com que tenho trabalhado (Badongo), iniciei já o uso de um outro (Rapidshare) e paulatinamente começarei a reenviar os ficheiros que agora estão inacessíveis.
Peço desculpa por esta contrariedade e agradeço desde já a todos os que me foram advertindo para as ocorrências nefastas com que me vi confrontado.
Irei começando pelos posts mais recentes e gradualmente espero colocar o serviço em dia. Ficheiros mais antigos e com pouca procura ficarão de fora, podendo sempre solicitar o envio de link com o upload respectivo e temporário.
Boas músicas!

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Daniel Melingo - Santa Milonga

Estamos perante um músico cinquentão, argentino de Buenos Aires, multi-instrumentista, cantor e compositor. Adolescente na época da feroz ditadura militar que teve início em 1976, teve papel relevante no panorama rock argentino, assumindo posturas seminais e provocatórias e acabando por fugir do país. Andou pela Europa e Brasil, onde integrou temporariamente a banda de Milton Nascimento. Fixou-se em Espanha, percorrendo a cena underground e dando asas à sua boémia, ao seu carácter irrequieto em permanente desassossego, sempre com uma boa dose de iconoclasmo.
De volta a Buenos Aires, já mais maduro, encena a sua transformação e começa a cantar e a dedicar-se ao tango, forma musical que os rockeiros baniam. Fá-lo, no entanto, com uma abordagem diferente, alterando códigos estéticos e líricos e juntando elementos rock.
São estes registos simultâneos, mais algumas sonoridades hispânicas e latino-americanas que poderemos escutar neste singular trabalho.
Não é à toa que haja quem lhe indique similitudes com Tom Waits ou Paulo Conte, pela característica da sua voz e pelo desconcertante espectro sonoro que emprega na sua música.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Loyko - Gypsy Times For Nunja


Este grupo foi descoberto por mim por mero acaso, quando folheava um recém-comprado livro escolar para a minha filhota Lia. Isto terá ocorrido há já um bom par de anos. Apetente por melodias oriundas destes quadrantes e seduzido pela amostra inclusa no manual, não demorei muito a partir em busca do restante.
Assim cheguei a este CD de 2001, onde a formação do grupo ainda comportava quatro elementos.
São músicos de alto gabarito, com formação clássica e especializada que se dedicam a explorar as tradições sonoras ciganas do centro da Europa, visitando o flamenco, com adornos clássicos e outros menos explícitos. Não entendo patavina de russo, mas o facto de usarem a poesia de Garcia Lorca deixou-me desde logo de apetite aguçado.
Os violinos emprestam sempre uma aura de sortilégio quando usados na música tradicional de vários países ou culturas. Aqui não fogem à regra e deixam-nos presos aos diferentes ataques que dedos hábeis lhes incutem.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Ry Cooder - Chávez Ravine

Bop Till You Drop, de 1979 e Borderline, de 1980, foram os discos que proporcionaram o meu primeiro contacto com a música de Cooder. Voltaria a encontrá-lo na banda sonora de Paris, Texas, de Wim Wenders. Mais tarde, quase a acabar o século XX, dei de caras com ele no fabuloso trabalho de reencontro de grandes músicos cubanos que ficarão para sempre na Histótia como Buena Vista Social Club. Pelo meio ainda o pude apreciar junto ao maliano Ali Farka Touré no álbum Talking Timbuktu e ao flautista indiano Ronu Majumdar e ao trompetista norte-americano Jon Hassel no projecto Hollow Bamboo.
Para além da música alicerçada nos ritmos latino-americanos, Cooder relata episódios verídicos dum excerto vergonhoso, mais um, da história americana. Uma comunidade de origem mexicana instalada num território californiano antes pertencente ao México, vê-se confrontada com a especulação imobiliária suja, já que dista muito pouco da grande urbe, Los Angeles. Acabaria a negociata no despejo de todas as famílias, acusadas torpemente de gente bandida e na construção dum imenso estádio de basebol dos Los Angeles Dodgers.
Os moradores sobreviventes de Chávez Ravine e as suas famílias formaram um grupo a que deram o nome de Los Desterrados e reunem-se todos os anos no Parque Elysian, jardim onde brincaram nos velhos tempos e com o estádio dos Dodgers ao fundo, fazem um grande piquenique e recordam histórias de uma comunidade que vivia em paz e harmonia e que acabou, depois de arrasada pelas máquinas e pelo poderio político-financeiro, dispersa e sob o jugo do preconceito.
Uma obra magistral e marco na carreira de um dos mais interessantes e lúcidos músicos americanos!

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Marsya - Visoko Drvo

Este quinteto sérvio, formado em 1999, lançou este cd em 2003.
Não me lembro bem quando e como me enfrentei com este grupo e a sua música. Estou convencido que veio por arrasto quando procurava por música dos territórios Balcãs.
Sonoridades puras, sujas pelas influências particulares de cada um dos intérpretes. Não é fácil esconder as escolas jazzísticas que impregnam de forma subtil os vários instrumentos tocados.
Trata-se de música medieval transposta para a contemporaneidade. Misturam-se canções de outrora com alguns temas originais que não fogem à linha estilística traçada.
Peças curtas, sons tradicionais com fugas à modernidade, virtuosismo moderado e um disco para se ir absorvendo em pequenos quinze tragos.

Marsya

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Van Morrison & The Chieftains - Irish Heartbeat

Estas duas entidades, uma individual, a outra associativa, não carecem de grandes apresentações. Van Morrison é um camaleão musical, versando várias formas e estilos, desde o rock ao folk, deambulando por eles com fácil e destra maestria. Os Chieftains são mais do que uma banda, são uma instituição respeitável da música tradicional irlandesa e celta.
Ouvimo-los neste excelente encontro no ano de 1988, interpretando oito temas tradicionais e dois originais de Morrison.
Parcerias destas redundam muitas vezes em fracassos e sensaborias. Quando digo fracassos, não falo na questão comercial, porque aí o fito é vender os nomes que se aglutinam e não a música produzida.
Neste caso a junção não é perniciosa e o resultado final traduz-se numa bela celebração das melodias irlandesas.



quarta-feira, 29 de abril de 2009

Andrew Bird & The Mysterious Production of Eggs

A música pop não tem sido aquela que me tem acompanhado nos meus últimos tempos de escuta. No entanto, sempre que sou alertado para qualquer novo acontecimento, vou no seu encalço e sou muitas vezes surpreendido pela positiva.
É o caso de Andrew Bird, músico de Chicago, que nos presenteia com o seu admirável trabalho de composição, canto e instrumentista. À partida, parecendo de carácter retro, este disco é virado para a frente, pela conjugação das parcelas sonoras exploradas, todas elas já antes ouvidas, mas manipuladas com mestria, inovação e extremo bom gosto.
Quando tento demonstrar um som, recorro frequentemente a outros conhecidos, para daí poderem extrair algumas ideias. Neste caso, vêm-me à lembrança os Beatles, Don McClean, dos anos 60 e os Flaming Lips, já deste século.
Aparentemente simples e indubitavelmente bem feito!

Bird

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Latin Playboys - Latin Playboys

Os playboys latinos são Mitchell Froom, Tchad Blake, David Hidalgo e Louie Pérez, estes dois últimos integrantes duma das mais relevantes bandas americanas: Los Lobos.
Quinze anos já separam os nossos dias, da data de edição deste trabalho experimentalista e assaz curioso. Não esperem ouvir um álbum de canções, tais como aquelas que a indústria nos habituou a consumir. Há aqui um vanguardismo ecléctico que percorre as áreas do blues e da música tradicional mexicana, com a adição de fragmentos do Norte de África.
Há três lembranças nominais que me ocorrem sempre que escuto os sons deste disco: Tom Waits, Peter Green e David Sylvian. Razões sobejas para lhe dar a devida atenção.
Esta foi uma das minhas primeiras incursões pela diferença!

Latin Playboys