quarta-feira, 18 de maio de 2011

Wig A Wag - Wig A Wag

Muitas bandas, das mais variegadas partes do globo, se deixaram seduzir pela fusão do rock com o folclore. Com frequência deparamos com projectos atractivos, bem fundidos e que chamam a minha atenção sempre expectante.
Os Wig A Wag são franceses e procuram navegar pelo rock progressivo e pela música tradicional bretã e celta. O resultado é de esmerada qualidade. Músicos competentes, virtuosos até, composições elaboradas e um som final que soa bem agradável ao ouvido. Esta mistura de instrumentos eléctricos e sintetizadores com bombardas. gaitas galegas, bendires ou flautas irlandesas, torna-se doce ou explosiva, conforme os desenvolvimentos das peças eminentemente criadas em formato de sinfonia.
Desconhecidos? Há tanta pérola por aí à espera da concha descoberta!

Wig A Wag

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Rajery - Fanamby

A música popular da grande ilha de Madagáscar tem a peculiaridade de, sendo basicamente africana, possuir vários elementos que a fazem diferenciar da dos seus vizinhos mais próximos, Moçambique, Tanzânia ou África do Sul.
As polifonias vocais e os instrumentos utilizados serão causas para o provindo que se escuta. As marés que lhe chegam do outro lado do Índico e a proximidade de rotas marítimas oriundas do Atlântico-Sul, também não serão indiferentes ao som apurado.
Rajery é um exímio tocador de valiha, uma cítara ou harpa feita de bambu e em forma tubular. Apesar do seu virtuosismo, é com algum pasmo que damos conta que executa com uma mão só, já que a outra lhe foi amputada, devido a envenenamento alimentar, quando era ainda criança.
Para além de instrumentista é um profundo estudioso e professor da sua cultura musical. Este seu CD é uma pequena maravilha que vale a pena conhecer.

Fanamby

quarta-feira, 20 de abril de 2011

María do Ceo - Dúas Almas do Miño

Nasceu portuguesa, na cidade do Porto, mas foi mais a norte, do outro lado da fronteira de outrora que María se entregou à paixão pelo fado. Começou por cantar alguns fados considerados standards como "Júlia Florista", "Rua do Capelão" ou "Ai Mouraria", e até 2004 sempre fez questão de cantar e incluir nos seus discos, fados ou cantigas bem portuguesas.
A partir de 2002 a fadista vai deixando entrar, paulatinamente, as suas influências naturalmente galegas, vai moldando a carreira e apurando o canto. A par dos fados vão surgindo boleros, cantigas populares luso-galegas, tangos, pedaços de cancioneiros hispânicos e desperta a atenção de públicos e observadores.
María do Ceo é uma admiradora profunda de Amália, cantou muitos dos seus fados e foi convidada a participar, em 2001, num espectáculo-tributo à grande diva que ocorreu no Coliseu de Lisboa.
Será um pouco estranho escutar fado cantado numa língua que não a portuguesa, mas passado o primeiro impacto damos conta que harmoniosamente tudo se funde sem atritos.
Entre o Minho e o Miño apenas existem um ñ em vez do dígrafo e um rio que não divide, antes faz a junção de dois povos.

dúas almas do miño

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Kiran Ahluwalia - Kiran Ahluwalia

Kiran nasceu a norte da Índia, de progenitores punjabis, tendo emigrado com eles para o Canadá, ainda criança, e crescido no seio duma comunidade sul-asiática. A família teve sempre a preocupação de a não desligar das suas raízes, mormente da música nativa. Mais tarde retornaria à Índia para melhor aprender os sons do seu berço. Dedicou-se em especial à tradição ghazal, género literário em forma de poema lírico que consagra o amor, o misticismo e a paixão sacrificada em seu nome.
Como ela o afirma publicamente, foi a melancolia suave que a seduziu. Sendo melodias que abordam a tristeza, não o exprimem versando contornos depressivos.
Não são, porém, peças tradicionais no seu todo. Há uma multiculturalidade notória no resultado final e a isso não será indiferente a participação de músicos canadianos com uniões à cultura celta. Estão assim associados instrumentos tradicionais como a tanpura que ela mesma toca, o sarangui ou as tablas, com outros de sonoridade ocidental.
Li algures que Kiran é amante de fado e que encontra nele fonte de inspiração. São inesgotáveis as fusões culturo-musicais que exuberantemente se nos apresentam e para as quais somos convidados em fascinantes sortilégios.

Kiran Ahluwalia

quarta-feira, 23 de março de 2011

The Shin - Many Timer

Esta banda de músicos da Geórgia radicados na Alemanha há já alguns anos, pratica uma fusão de géneros baseada numa miríade de influências. Músicos maduros, experientes e de excelente craveira técnica que partindo do folclore georgiano irrompem pelo rock progressivo, pelo jazz, pelo flamenco, pelas riquíssimas polifonias vocais caucasianas e atingem uma sonoridade assaz cativante. Tanto soam a uma gypsy band como, aqui e ali, lembram os magníficos Gentle Giant. Vão do acústico ao eléctrico, misturam sons sintetizados com dudukis e panduris e o baixista não esconde a enorme influência de Pastorius. Funcionam em trio mas recebem, aqui e noutros eventos, o contributo de vários músicos oriundos dos Estados Unidos, da Turquia e do Azerbaijão, para além de outros compatriotas.
2010 foi um bom ano para eles e o ano corrente afigura-se-lhes de grande proficuidade, estando já anunciados em múltiplos concertos e festivais pelo mundo, incluindo a presença no Rainforest World Music Festival da Malásia.
De visitas a Portugal é que ainda não há sinais.

Many Timer

quinta-feira, 10 de março de 2011

Orchestra Baobab - Spécialist In All Styles

Falar em World Music e não citar a Orchestra Baobab como um dos exemplos dos cruzamentos culturais e musicais mais relevantes, é uma lacuna imperdoável.
Banda senegalesa, fundada em 1970, é mais uma daquelas instituições que devem ser consideradas património de toda a humanidade.
Estiveram inactivos durante quinze anos e voltaram, com outra pujança, em 2001 para uma nova e exuberante vida.
Nesta amálgama de sons e culturas vislumbram-se ritmos cubanos, boleros, rumbas congolesas e outros sinais africanos. Isso deve-se, notoriamente, aos músicos que ao longo dos anos integraram a banda e que foram chegando do Togo, do Mali, de Marrocos ou da Guiné-Bissau. Ninguém se espante se ouvir umas palavras portuguesas pelo meio.
O disco tem produção doutro senegalês de excelência, Youssou N'Dour e a participação do grande e saudoso Ibrahim Ferrer.
Há muitas bandas decadentes, nomeadamente na área pop/rock, que teimam em ressurgir para saturar os nossos ouvidos, mas a Baobab voltou para nos deliciar com a magia dos sons que a sua mesclada cultura transporta.
Estiveram, imaginem, pela primeira vez em Portugal, nesta minha cidade que é Aveiro e para apresentar este mesmíssimo disco. Por essa altura, inícios de 2003, andava ainda um bocado distraído destes eventos e perdi, ao que me contam, um concerto imperdível.

Baobab

terça-feira, 1 de março de 2011

Diana Baroni Trio - Nuevos Cantares Del Perú

Descobri Diana Baroni pela mão do meu amigo Alonsii, desde Barcelona, ele que foi um dos meus suportes iniciais nesta minha faceta de bloguista. Aqui lhe deixo o meu grato reconhecimento.
Diana nasceu na Argentina e foi em Buenos Aires que iniciou a sua formação e onde encetou a sua carreira musical na música contemporânea. Vem depois para a Europa e com o fito de estudar profundamente os meandros da música antiga. É entre a Suiça e a Holanda que divide essas pesquisas, tendo integrado, posteriormente, o ilustre grupo Café Zimmermenn, aí sendo co-galardoada por interpretações de obras de Johann Sebastian Bach. É a sua fase do barroco que viria a ser fundamental na sua etapa mais próxima.
No início do século XXI começa a dar os primeiros passos na música afro-peruana. Vem para Espanha e recomeça novos ensaios e pesquisas. Este CD é fruto disso e reflecte a sua visão do encontro da música barroca e das tradições musicais hispânicas disseminadas pelas ex-colónias. À flauta barroca transversal, que fora o instrumento de base do seu percurso, junta a voz e tudo muda.
Inspiração importante foi, sem dúvida, a grande Chabuca Granda. Algumas canções suas, de entre as quais a que escolhi para amostra, podem aqui ser escutadas com as tais roupagens mistas com que Diana e o seu trio as cobrem.
Estiveram em Portugal já por duas vezes, a última das quais em Março do ano passado, no CAE da Figueira da Foz, mas não me dei conta do evento. Pena minha. Estaria lá, por certo!

Diana Baroni

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Mostar Sevdah Reunion - A Secret Gate

Na minha avidez de conhecer mais a fundo a música cigana do centro da Europa, ou outras com as suas influências, deparei com estes bósnios de Mostar. Os sons característicos daquela zona sempre me fascinaram mas só há pouco tempo é que lhes dispensei alguma melhor atenção. Esta banda pareceu-me, desde logo, bem genuína e representativa da música popular do seu país.
Desde 1998 foram somando plateias cada vez mais numerosas e atentas. Foram também acumulando presenças em festivais e recebendo vários galardões pela sua obra.
A melancolia atravessa todo disco e mesmo os trechos mais alegres não apresentam a exuberância festiva doutras bandas de países oriundos da desmembrada Jugoslávia. Talvez isso se deva ou seja fruto de tanta desgraça que por ali se viveu.
Um disco a descobrir.

A Secret Gate

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Guinga - Suíte Leopoldina

Ora cá temos mais um ilustre quase desconhecido por estas bandas e suponho que também por terras brasileiras. Guinga, de seu nome Carlos Althier de Sousa Lemos Escobar, é um emérito compositor, brilhante instrumentista que canta menos mal. Daí recorrer a alguns amigos cantores para interpretar as suas criações. E que amigos, que cantores! Então vejamos: Chico Buarque, Ivan Lins, Nei Lopes, Lenine, Ed Motta e Alceu Valença. A abrir e a fechar o disco temos a inigualável harmónica de Toots Thielemans.
Esta Suite vai do clássico dedilhado da guitarra até aos populares chorinhos e sambas. Guinga mostra-se competente, quer no jazz, quer no baião. Metade instrumental, metade cantado, o disco evolui de forma harmoniosa e quando o canto surge, as palavras são sabiamente escolhidas, sejam dele ou de parceiros, denotando um enorme e contundente sarcasmo.
Escolhi, para vossa audição na Minha Caixinha de Música, um trecho feito a meias com Aldir Blanc, cantada por Valença, onde homenageia o mestre Hermeto Pascoal e nos enleia com a sua intrincada teia sonora.
Talvez pelo sucesso comercial não ser o melhor, ou por paixão dupla, Guinga continua a exercer a sua profissão de ortodontista, ao que parece, com relevância maior. Na música já sabemos do que é capaz.
Como diz a letra inspirada por Hermeto: Se a criação é mais, se o músico for bom...até penico dá bom som!

Suíte

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Djelimady Tounkara - Solon Kôno

Este disco foi-me oferecido há quatro anos como prenda de aniversário e confesso que não conhecia o músico e a sua obra. Sabia que o Mali era, e é, fértil em musicalidade e com uma riqueza ímpar de talentos, mas de Djelimady não tinha qualquer rasto.
Quando seleccionei o disco para publicar aqui, estava também longe de saber que Djelimady integrava o projecto AfroCubism, encontro de músicos de África e Cuba que esteve agendado para o ano de 1996 e que somente veio a ver a luz do dia em 2010.
Andou meio despercebido no seio de orquestras e grupos de apoio a figuras de primeira como Salif Keita ou Mory Kanté, só se revelando a solo a partir de 2001. A sua técnica e arte atravessam um vasto leque de origens e influências que vão da tradição mais pura até a algumas paragens não africanas. Ele é o guitarrista por excelência e para ajuda chamou alguns nomes cujos apelidos são de famílias sobejamente conhecidas. Encontramos outros Tounkara, mais Sissoko, mais Diarra, mais Kanté e Diabaté que se espraiam por vozes e instrumentos diversos.
Aconselho a escuta e incentivo a descoberta de outros elos que da sua obra se unam.

Solon Kôno

domingo, 26 de dezembro de 2010

O MELONAUTA 2010

Se me perguntarem se 2010 foi um ano perfeito para mim, direi que nem de perto. Teve pontos altos que me atiçaram e pontos baixos que me abateram. Aliás, será este o imperfeito normal do comum dos mortais. É do balanço final que fazemos chegados a estes derradeiros dias, quem se der a esse labor, que de forma recapitulativa encontramos os picos das nossas vivências. Tive de tudo um pouco. Algumas frustrações, um punhado de realizações, algumas tristezas e angústias, encontros, desencontros e reencontros, alegrias e pinceladas de felicidade que tudo amainaram. O ano está a findar de forma serena e muita bonita. A minha família, a minha companheira de sempre, os meus filhos para sempre, o meu neto adorado (causador de extremos sentimentos), e alguns dos meus melhores amigos proporcionaram-me o melhor Natal de que tenho memória. Com menos presentes de embrulho, mas com muito amor recebido e ofertado. Valeu vivê-lo!
Todos os anos faço uma resenha da música ouvida e dos espectáculos assistidos, culminando essa apreciação global num CD que tenho o grato prazer de oferecer a um punhado de queridos amigos que tem a amabilidade de aturar a minha forma de ser. Desta vez, vou também disponibilizar essa colectânea a todos os que me visitarem e estiverem interessados nas coisas musicais que ouvi durante o ano. Umas bem recentes, outras mais antigas, mas todas elas marcantes no meu constante evolutivo conhecimento. São dois discos, mais capas e interiores, onde poderão encontrar outros pormenores sobre as minhas escolhas.
Resta-me agradecer a todos os que chegaram até este meu blogue e que de alguma forma deixaram a sua opinião ou aproveitaram as publicações, contribuindo para a minha vontade de prosseguir.
E que venha 2011!

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Kila & Oki - Kila & Oki

Os Kila são a banda de Rónán Ó Snodaigh e seus compinchas, que há mais de vinte anos se vem dedicando à renovação e propagação da música tradicional irlandesa. Embora a sua carreira não tenha tido a visualidade merecida, facto infelizmente comum, o legado que vão deixar é de um valor indefinível.
A junção que fizeram da sua música com a de Oki, tocador de tonkori, instrumento de corda da tradição Ainu, povo da Ilha de Hokkaido/Japão, revela o assombro da feliz conjugação dos sons emanados e irmanados. Da Irlanda vêm as uilean pipes, o bodhrán, o dulcimer, o tin e o low whisles. Do nordeste japonês, o tonkori de Oki. Mas, pelo meio, aparecem-nos o djembe africano (percussão), a darabuka árabe (percussão) e o didjeridu (sopro) dos aborígenes australianos.
Deste encontro entre Ocidente e Oriente, desta aventura afortunada, desta partilha de tradições e culturas, dimana uma obra de singular expressão que deverá ser escutada com os sentidos bem despertos. Ficamos ali pelo meio, entre o passado e o presente, com um ouvido no futuro.

K & O

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

The Blind Boys of Alabama - Spirit of the Century

Estes rapazes invisuais começaram a cantar gospel nos fins dos anos 30 do século passado e conseguiram chegar até aos nossos dias, mau grado terem ido perdendo os seus fundadores durante a sua caminhada. No entanto, foi apenas neste século que viram o mundo a tomar conhecimento do seu já longo trabalho. Para isso terão contribuído em muito, algumas ligações que encetaram com algumas personalidades notórias do pop-rock-blues, das quais cito Ben Harper, Bonnie Raitt, Lou Reed e John Hammond.
Este disco contém tradicionais e versões de trechos de Tom Waits, Ben Harper e até dos Rolling Stones. É festa e devoção, com um encanto muito especial, dado por quem utiliza a velhice como um dom.

Blind Boys

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Vinicio Capossela - Ovunque Proteggi

O universo de Vinicio Capossela é tão vasto que não se confina à sua música. Expande-se pela literatura, pelo teatro, pelo cinema, pela rádio e televisão, evidenciando a sua avidez pela criação de formas diferentes de expressão. Não é fácil classificar o seu trabalho, pela multiplicidade de influências e pela prodigiosa mistura de fontes musicais.
É um devoto de Tom Waits e não foi por acaso que convidou o guitarrista Marc Ribot para com ele trabalhar.
A panóplia de instrumentos que usa e faz usar, poderá dar uma ideia daquilo que se apresenta diante de nós. Ou pode ainda provocar maior embaraço. Para citar apenas alguns: harmónio indiano, marimba, chocalhos de Tonara, órgão de garrafas (tem mais deste género), teremim (um dos primeiros instrumentos electrónicos), balafon, shofar (arcaico instrumento de sopro judeu), banjo, dobro, sousafone (um gigante idealizado pelo luso-americano John Philip Sousa, o homem das marchas), har hu (violino), sheng (órgão de boca), xun (flauta cerâmica), os três últimos de origem chinesa, vários teclados electrónicos e muitos, muitos outros menos exóticos, divididos por cordas, sopros e percussões.
Foi então, mais ou menos, isto que perdi, quando Vinicio passou pelo Teatro Aveirense e quando esta sala ainda era um viveiro de boa música...

Ovunque Proteggi

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Gonzales - Solo Piano


Depois de fechado um capítulo, é hora de abertura de um novo. Saldei todas as contas musicais que deixara para trás e vou voltar a memórias mais recentes e divulgar discos que entendo serem importantes para quem queira actualizar os seus conhecimentos ou quem decida começar a abrir janelas a outros ventos.
Gonzales, de seu nome Jason Charles Beck, nasceu no Canadá e aproveitou o facto do seu irmão mais velho estudar piano, para iniciar o seu auto-estudo do instrumento, isto quando tinha três anos de idade. Mais tarde fez formação clássica mas foi na música pop que iniciou carreira.
Músico de excessos e sem preconceitos estéticos ou barreiras de expressão, tem percorrido várias áreas de composição, interpretação ou produção. Andou pelo hip-hop, fez entretenimento em bares, acompanhou filmes mudos, executou trabalhos para os Daft Punk, David Bowie, Jane Birkin, Charles Aznavour, citando apenas alguns, e como poderão atestar, oriundos das áreas mais díspares. Encontrei-o também no excelente Multiply de Jamie Lidell e perdi-o quando visitou Aveiro. Troquei-o por um soporífero musical do Cirque du Soleil e mil vezes me arrependo, acabando por perder também o músico que aqui trarei logo a seguir.
Este é o trabalho de Gonzales mais simples, minimalista e muito bonito, diferente de tudo o que fez durante a sua extensa obra.
Foi este o espectáculo que me escapou.

Piano Solo

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Amália - Segredo

Já me foi pedido por aqui que colocasse esta obra para audição. É com ela que vou terminar mais um capítulo da minha melomania. Segredo já tinha sido abordado por mim, nesta página.
Este é um disco editado postumamente, contendo gravações inéditas e algumas versões nunca publicadas. Acompanham Amália, Raúl Nery, Fontes Rocha, Júlio Gomes, Pedro Leal, Carlos Gonçalves e sempre, sempre Joel Pina. A maioria das composições é, naturalmente, de Alain Oulman e temos poemas de Reinaldo Ferreira, Cecília Meireles, David Mourão-Ferreira, Ary dos Santos, Manuel Alegre e Alexandre O'Neill. Destaco deste último, um poema maior, denso, voluptuoso e amargo. A amargura das pessoas que vivem e temem a solidão, como ela.
Tudo isto foi gravado por Hugo Ribeiro nos Estúdios Valentim de Carvalho, durante as famosas e intermináveis sessões, para as quais Amália levava, muitas vezes, farnel para aquela gente toda.
Numa visita que fiz há alguns anos aos estúdios de Paço d'Arcos, alguém que não recordo, falando da facilidade ou dificuldade de gravar esta ou aquela voz, das tormentas passadas com os desafinados, mostrou a maior admiração pela capacidade natural de Amália, em apontar as imperfeições ou erros supostamente cometidos. Erros esses que estariam apenas na sua cabeça, pois era perfeita!
Estas gravações ocorreram entre 1965 e 1975, período em que se encontrava no topo da sua maturidade vocal e no do rigor interpretativo de grandes textos.
Para ouvir e emocionar!

Segredo

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Amestoy Trio - Le Fil

Sou um declarado e assumido amante daquele que considero o primeiro instrumento, a voz! Isso não impede, de forma alguma, que vibre com a escuta de todos os outros, com predilecção por este ou aquele.
A conjugação dos três aqui manuseados e assoprados, é prova do que atrás afirmo. Apenas e por uma vez, um discreto piano aparece no meio deles. Toda a elegância e sensibilidade que os fazem exalar, sobrevoa-nos em estereofonia repartida em três e ocupa o espectro que se dispõe diante de nós.
Aqui trouxe, pela primeira vez, este trio admirável, merecedor de atenta audição.

Le Fil

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Rónán Ó Snodaigh - Tip Toe

Rónán continua sendo um dos mais singulares recriadores da música tradicional/popular irlandesa. Fá-lo com prodigioso engenho e fino trato. O seu trabalho, profícuo, matizado e fértil, orienta-nos para ares e locais de harmonia que, embora conhecidos, nos soam a frescura, no modo e no efeito. Tem a notável peculiaridade de nos surprender e de nos conduzir a estados encantatórios. Este seu álbum tem edição de 2001, mas se procurarem outros trabalhos posteriores, terão oportunidade de verificar que as qualidades se apuraram.

Tip Toe

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Eliseo Parra - De Ayer Mañana

Este disco é uma pequena maravilha e uma lição de etnologia baseada no folclore espanhol, confluindo com outros que lhe estão intimamente ligados. Os violinos levam-nos ao México, as tablas e as flautas à Índia, o alaúde ao norte de África, o berimbau ao Brasil, dando nós conta de visita ao nosso Mirandum e vislumbrando uma guitarra de teclas.
Mas não é tudo pureza. A sujidade contemporânea aparece naturalmente, sorrateira e envolvente.
O pensamento de Eliseu está bem patente nas suas declarações inclusas no disco. Traduzo-as tentando não as deturpar:
Preciso saber de onde vim e conhecer-me melhor. O que inicialmente era uma procura da minha verdadeira cultura, tornou-se no reconhecimento de uma música tão forte que nenhum compositor pode superar. A música tradicional, composta por um indivíduo - sem o intuito de ganhar dinheiro - foi entregue ao povo, este apoderou-se dela, passou-a aos seus descendentes até que chegou até nós como uma jóia polida à força de tanto ser cantada e tocada. Sem campanhas promocionais, nem monopólios de mercado. É desta maneira que a retomo, que a recrio o melhor que sei e a passo aos seguintes.

De Ayer Mañana

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Amadou & Mariam - Wati

Sempre que oiço este álbum, o meu disco duro cerebral traz-me a lembrança de várias sonoridades já escutadas. Uma delas, logo a abrir, lembra-me o british blues e os Fleetwood Mac de Peter Green, como poderão comprovar com a audição do tema que incluo na Minha Caixinha de Música.
Preparem-se então para esta mescla de guitarras blues e rock, vilolinos árabes, flautas africanas, tablas indianas, metais das Caraíbas e muitos instrumentos do Mali.
Estou na fase final do labor que me impus e que consiste em disponibilizar a audição integral de obras já aqui reportadas por mim. Esta é uma delas.

Wati

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Xaile - Xaile

Não me alongarei muito mais discorrendo sobre este disco e sobre esta banda. Trata-se de uma caso paradigmático na música popular portuguesa. Tiveram tudo para ser um êxito de grandes proporções, mas nunca ultrapassaram um estranho limbo que impediu maior sucesso. Isto não significa que o trabalho é fraco, ou que se tratou de um lapso de estratégia editorial. O fenómeno deverá igualizar outros tantos que todos os anos despontam, emergindo apenas um par de felizardos. Quantos discos de grande valia não são ignorados ou desprezados, mesmo até votados ao desconhecimento? Vale a pena ouvir este disco de ponta a ponta, coisa perfeitamente fácil, e descobrir o porquê do que atrás afirmo. Tenho a convicção que a forma pop mais ligeira que atravessa o disco, não terá sido muito bem digerida pelos mais ortodoxos e a forma folk não cativou a outra parte. E isto pode ser lido como preconceito dos dois lados.
Quer se goste, ou menos goste, esta será uma obra marcante no rico historial da música portuguesa.

Xaile

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Yungchen Lhamo - Ama

Pouco deverei acrescentar ao que sinteticamente descrevi no comentário que aqui publiquei em Janeiro de 2008. Este continua a ser o seu disco mais recente e o apetite de ouvir novas lucubrações foi crescendo à medida que o tempo foi decorrendo sem novos frutos.
Enquanto não surge outro disco, contentemo-nos com este, onde os cânticos tibetanos se ligam a sonoridades ocidentais em perfeita harmonia. Sacia-se o vazio com este prazer que nos consola os sentidos e o espírito.
Comprei-o, como vários outros, usado e em excelente bom estado de conservação. Paguei mais pelos portes do que pelo CD, mas valeu bem a pena!

Ama

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Tinariwen - Amassakoul

Cá volto a esta banda assaz peculiar, dada a insólitas e sucessivas combinações de membros, justificadas pelo seu estilo nómada e vagueante do Sahara. O colectivo adapta-se às circunstâncias, tem alguns elementos mais constantes e tal como nos blues, partem do tema para o improviso, fazendo dele e das fusões afro-americanas os seus maiores suportes. Digamos que actuam os que estão mais à mão...
Foi este disco que lhes abriu definitivamente a porta do mercado europeu e lhes granjeou o apreço de notáveis e do público dos festivais de World Music. Também fulcral terá sido a aproximação que tiveram aos Lo'Jo que lhes proporcionou uma outra visibilidade, até aí muito discreta.
Ainda este ano voltaram a Portugal e estiveram no Festival de Sines. Depois deles, outras bandas com características semelhantes apareceram no panorama da especialidade, mas foram os Tinariwen que abriram caminho.

Amassakoul

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Rodrigo Y Gabriela - Rodrigo Y Gabriela

Na minha primeira abordagem a este belo par de músicos, acabei dizendo que muito gostaria de os ver ao vivo. Estive a um passo de isso acontecer. Rodrigo e Gabriela foram oficiosamente anunciados para actuar em Aveiro durante o ano de 2008, mas as comedidas, mesquinhas e retrógadas políticas culturais da actual Câmara Municipal impediram que a cidade se ufanasse da exclusividade e o país musical enriquecesse o seu programa de concertos. Ficámos desapontados e cientes de que melhoras...só num futuro!
Este duo está vocacionado para os concertos. De quatro discos já editados, metade são registados ao vivo. Como vêem, o desgosto é ainda mais profundo.
Vamo-nos contentando com a sua audição e esperar que nova ocasião surja no nosso horizonte.

R y G

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Concha Buika - Mi Niña Lola


Em 2008 classifiquei este disco como o meu preferido de 2007. Agora, e à distância de mais dois anos, continuo a manter a mesma opinião, solidificada com o tempo e com repetidas escutas. De lá para cá pude desfrutar das suas mais recentes edições e tenho para mim que esta é a sua melhor obra até à data. Isto não significa que as outras são menores ou omissas de grande qualidade. Julgo que a novidade na época, aliada ao enorme "estrago" emocional que em mim provocou, são a razão mestra desta minha preferência. Ainda hoje a pele se me contrai e os pêlos se me eriçam quando oiço Mi Niña Lola!
Por esta altura era ela uma quase genial desconhecida que veio depressa a ganhar alguma popularidade e vasta notoriedade. Continua a ser pura emoção e a audição das suas obras é obrigatória.

Mi Niña Lola

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Egschiglen - Zazal

Volto a este disco para disponibilizar a sua audição integral. Espero sinceramente que tenha um impacto semelhante àquele que me atingiu quando o ouvi pela primeira vez.
Há obras assim. Marcam-nos de forma indelével, suportando o pó dos tempos e a sua audição atenta é sempre fonte de prazer.
Intemporal é também a música que transportam pelo mundo, oferecendo-a com o rigor exigido a embaixadores de tradições em vias de extinção.
É a terra, a pureza, a manipulação hábil dos artefactos, a arte única e enlevada da voz, é a melodia harmoniosa.
São jóias raras que urge preservar, divulgar e afagar. São património, são nossas!

Zazal

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Gjallarhorn - Sjofn

Para além do que já defini da primeira vez que aqui trouxe esta fabulosa banda, apenas me apraz sublinhar que cada audição revisitada nos faz descobrir uma riqueza prodigiosa de sonoridades inexpectantes. Leva-me isto a dizer que ouvir este disco é quase uma viagem de cinema-documentário sobrevoando vales e penhascos, ora planando suavemente, ora vertiginosamente mergulhando a pique nos densos canoros. Uma experiência altamente recomendável.

Sjofn

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Farlanders - The Farlander

Desde que publiquei a minha primeira impressão sobre este disco, várias coisas descobri sobre esta dupla russa e posso acrescentar que a surpresa inicial deu lugar ao reconhecimento de dois artistas notáveis que, sem uma visibilidade notória, têm mantido trabalhos separados, unidos pela paixão da sua música comum. Pelo que consegui descobrir terão trabalhado em conjunto e pela última vez ao lado de Mari Boine no ano de 2001, tendo gravado com ela o álbum "Winter in Moscow". Existe outro trabalho ao vivo com o título "Moments", editado em 2000 e que não consigo saber se é do grupo ou se foi feito em nome de um deles.
Fazendo parte do Moscou Art Trio, Sergey começou desde logo a desdobrar-se em múltiplas actividades, estando intimamente ligado ao enorme sucesso das Vozes Búlgaras nos anos 90. Relevantes ainda os seus trabalhos com o Volkov Trio e o álbum "Journey" de 2000, gravado com um quarteto vocal feminino.
Inna, uma bela mulher e uma bela voz, manteve sempre um vigorante labor, aliando-se a díspares sonoridades, tendo editado em 2008 o seu último cd/dvd "Winter". Sem largar o folk russo do horizonte, facilmente se embrenha pelo rock ou pelo jazz, misturando electrónicas com música feita à mão, envolvendo-se em algum elanguescido psicadelismo.
Este disco lembra algumas bandas dos anos 60/70 que cultivaram o folk, o jazz e o art rock. Estou a lembrar-me dos Jethro Tull, dos King Crimson, dos Gentle Giant ou dos Focus. Será que não lhes lembrou o mesmo também?
Movam-se ambos por um qualquer território musical, nunca abandonam as raízes donde vêm nem os ares da tundra vizinha.


quinta-feira, 24 de junho de 2010

Huong Thanh - Dragonfly


Os mais assíduos visitantes já deverão ter reparado que entrei numa fase de retorno a obras já aqui por mim trazidas, embora sem as ter disponibilizado na íntegra. Espero desta feita contribuir para uma apreciação mais concreta desses trabalhos que mereceram a minha atenção em passado recente e que continuam a fazer parte da minha pasta de favoritos.
Este CD de Huong Thanh apareceu-me em corrente. Andava a ouvir Richard Bona, puxei um bocadinho pelo fio, trazia Dhafer Youssef, depois Nguyên Lê, mais um pouco içado e revela-se-me esta vietnamita desconhecida. São correntes preciosas com invulgares ornamentos para os sentidos.
Na Minha Caixinha de Música (Juke Box) deixo uma amostra do dueto Bona/Thanh e dos sons que os embalam.

Dragonfly

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Dhafer Youssef - Electric Sufi


Não tenho muito mais a acrescentar aos breves comentários que fiz da primeira vez que abordei o autor e a obra.
Continuo a procurar este disco para audição, o que não é coisa que faça com muitos outros, significando que há sempre uma expectativa latente em ir ao encontro de paisagens sonoras que não foram totalmente contempladas.
Uma boa escolha para nos acompanhar nas noites quentes de estio (imaginem-nas...), ou em frente duma lareira inverniça. Em suma, para ouvir sempre!

Electric