Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

Ry Cooder - Chávez Ravine

Bop Till You Drop, de 1979 e Borderline, de 1980, foram os discos que proporcionaram o meu primeiro contacto com a música de Cooder. Voltaria a encontrá-lo na banda sonora de Paris, Texas, de Wim Wenders. Mais tarde, quase a acabar o século XX, dei de caras com ele no fabuloso trabalho de reencontro de grandes músicos cubanos que ficarão para sempre na Histótia como Buena Vista Social Club. Pelo meio ainda o pude apreciar junto ao maliano Ali Farka Touré no álbum Talking Timbuktu e ao flautista indiano Ronu Majumdar e ao trompetista norte-americano Jon Hassel no projecto Hollow Bamboo.
Para além da música alicerçada nos ritmos latino-americanos, Cooder relata episódios verídicos dum excerto vergonhoso, mais um, da história americana. Uma comunidade de origem mexicana instalada num território californiano antes pertencente ao México, vê-se confrontada com a especulação imobiliária suja, já que dista muito pouco da grande urbe, Los Angeles. Acabaria a negociata no despejo de todas as famílias, acusadas torpemente de gente bandida e na construção dum imenso estádio de basebol dos Los Angeles Dodgers.
Os moradores sobreviventes de Chávez Ravine e as suas famílias formaram um grupo a que deram o nome de Los Desterrados e reunem-se todos os anos no Parque Elysian, jardim onde brincaram nos velhos tempos e com o estádio dos Dodgers ao fundo, fazem um grande piquenique e recordam histórias de uma comunidade que vivia em paz e harmonia e que acabou, depois de arrasada pelas máquinas e pelo poderio político-financeiro, dispersa e sob o jugo do preconceito.
Uma obra magistral e marco na carreira de um dos mais interessantes e lúcidos músicos americanos!

Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

Marsya - Visoko Drvo

Este quinteto sérvio, formado em 1999, lançou este cd em 2003.
Não me lembro bem quando e como me enfrentei com este grupo e a sua música. Estou convencido que veio por arrasto quando procurava por música dos territórios Balcãs.
Sonoridades puras, sujas pelas influências particulares de cada um dos intérpretes. Não é fácil esconder as escolas jazzísticas que impregnam de forma subtil os vários instrumentos tocados.
Trata-se de música medieval transposta para a contemporaneidade. Misturam-se canções de outrora com alguns temas originais que não fogem à linha estilística traçada.
Peças curtas, sons tradicionais com fugas à modernidade, virtuosismo moderado e um disco para se ir absorvendo em pequenos quinze tragos.


Quarta-feira, 20 de Maio de 2009

Van Morrison & The Chieftains - Irish Heartbeat

Estas duas entidades, uma individual, a outra associativa, não carecem de grandes apresentações. Van Morrison é um camaleão musical, versando várias formas e estilos, desde o rock ao folk, deambulando por eles com fácil e destra maestria. Os Chieftains são mais do que uma banda, são uma instituição respeitável da música tradicional irlandesa e celta.
Ouvimo-los neste excelente encontro no ano de 1988, interpretando oito temas tradicionais e dois originais de Morrison.
Parcerias destas redundam muitas vezes em fracassos e sensaborias. Quando digo fracassos, não falo na questão comercial, porque aí o fito é vender os nomes que se aglutinam e não a música produzida.
Neste caso a junção não é perniciosa e o resultado final traduz-se numa bela celebração das melodias irlandesas.



Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

Andrew Bird & The Mysterious Production of Eggs

A música pop não tem sido aquela que me tem acompanhado nos meus últimos tempos de escuta. No entanto, sempre que sou alertado para qualquer novo acontecimento, vou no seu encalço e sou muitas vezes surpreendido pela positiva.
É o caso de Andrew Bird, músico de Chicago, que nos presenteia com o seu admirável trabalho de composição, canto e instrumentista. À partida, parecendo de carácter retro, este disco é virado para a frente, pela conjugação das parcelas sonoras exploradas, todas elas já antes ouvidas, mas manipuladas com mestria, inovação e extremo bom gosto.
Quando tento demonstrar um som, recorro frequentemente a outros conhecidos, para daí poderem extrair algumas ideias. Neste caso, vêm-me à lembrança os Beatles, Don McClean, dos anos 60 e os Flaming Lips, já deste século.
Aparentemente simples e indubitavelmente bem feito!

Bird

Sexta-feira, 3 de Abril de 2009

Latin Playboys - Latin Playboys

Os playboys latinos são Mitchell Froom, Tchad Blake, David Hidalgo e Louie Pérez, estes dois últimos integrantes duma das mais relevantes bandas americanas: Los Lobos.
Quinze anos já separam os nossos dias, da data de edição deste trabalho experimentalista e assaz curioso. Não esperem ouvir um álbum de canções, tais como aquelas que a indústria nos habituou a consumir. Há aqui um vanguardismo ecléctico que percorre as áreas do blues e da música tradicional mexicana, com a adição de fragmentos do Norte de África.
Há três lembranças nominais que me ocorrem sempre que escuto os sons deste disco: Tom Waits, Peter Green e David Sylvian. Razões sobejas para lhe dar a devida atenção.
Esta foi uma das minhas primeiras incursões pela diferença!

Latin Playboys

Sexta-feira, 20 de Março de 2009

Souad Massi - Mesk Elil

Cantora, compositora e guitarrista, senhora de uma voz doce e de ricos requebros tímbricos, lançou este seu terceiro álbum em 2005, depois de ter jornadeado por rumos bem diferentes e de ter maturado a sua identidade musical. Mesk Elil é o lucro que resultou da vivência juvenil que deixou para trás, adicionado às origens da sua cultura.
Nascida na Argélia, aí começou por entrar nos meios do rock e por se empenhar na intervenção política e social. Vive há cerca de dez anos em Paris.
Com o avançar da audição deste disco, vamo-nos apercebendo de várias influências, desde o folclore argelino, até ao flamenco, passando pelo fado português ou pela morna cabo-verdiana. Canta em argelino, francês, inglês e berbere (sua língua natal), empregando, por vezes, várias delas na mesma canção. Utiliza instrumentos tiptcamente africanos e árabes (alaúde, cajon, bendir), violinos e outros como a guitarra e o baixo eléctricos.
Embalados pela sua voz e pelo ameno ritmo do conjunto, vamos do deserto à cidade, ladeados por aprazíveis oásis.

Mesk Elil

Quinta-feira, 5 de Março de 2009

Armenian Navy Band - Natural Seeds

À primeira vista, estamos perante a Banda da Armada da Arménia. Mas a Arménia não tem mar! Confrontamo-nos com um irónico paradoxo e logo aí ficamos alerta para que mais surpresas nos assaltem.
Comprei este cd antes de entrar para a sala do Teatro Aveirense, onde viria a presenciar um espectáculo delicioso de virtuosismo, alegria, humor, sensibilidade, humanismo e de festa. Tudo para mim foi novidade, mas deslumbrante!
Foi com redobrado prazer que depois escutei o cd em casa.
Fundada e dirigida por Arto Tunçboyaciyan, percussionista e cantor, um dos mais destacados músicos arménios que reuniu ao seu redor um núcleo de jovens entusiasmados por revigorar a música autóctone.
É o próprio Arto que diz, acerca da música do grupo, "sem perder a identidade, podes expandir a imaginação, com as tuas experiências".
Jazz, rock sinfónico (o timbre de Arto faz lembrar Gabriel) e muito folclore arménio, "música folk de vanguarda", como eles próprios definem o som produzido.
E para ajudar a desmontar o paradoxo, é Arto que escreve no booklet do disco: "A nossa ideologia é criar confiança entre as pessoas. Se houver amor, respeito e honestidade na tua ideologia, penso que podes mover o barco sem água"!
Este é um trabalho conceptual e portanto a faixa que incluí na Minha Caixinha de Música aparece cortada no fim...

Seeds

Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009

Corey Harris - Mississipi to Mali

Quem viu a série "The Blues" e mais concretamente o episódio realizado por Martin Scorsese, decerto se lembrará deste músico americano, dedicado aos blues e às suas mais profundas raízes. Quem tem seguido com a devida atenção o Festival Sons em Trânsito, recordar-se-á da sua presença na edição de 2006.
Este disco foi gravado por metades, repartidas entre o Mali e os Estados Unidos, aliás, como o seu genérico título sugere. Nele participaram músicos essenciais na cultura tradicional de cada um dos continentes.
É um som mágico que cruza essas culturas, devolvendo às origens a base do blues e recebendo de lá experiências perenes que se renovam. Imaginem Lightnin' Hopkins tocando e cantando sob qualquer sombra da savana africana. É mais ou menos esse encanto que este trabalho nos proporciona.

Mississipi

Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009

Renata Rosa - Zunido da Mata

Cantora, tocadora de rabeca (violino rural), compositora e porta-bandeira do património cultural e musical do nordeste brasileiro, entre a mata e o mar. É nessa e dessa propriedade popular que Renata idealiza e faz medrar a sua música. Consolidada nos ritmos, parte fundamental da cultura afro-brasileira, e nos cantos caboclos da região, integra depois as cordas da rabeca, do violão e da bandola que completam a harmonia final.
Este é o seu cd de estreia, onde também há lugar para metais e para o meu amigo Roberto Manoel dar um ar da sua graça, tocando a sua trompete piccolo. Robertinho integra o grupo Siba e A Fuloresta, os tais que os meus vizinhos não vão esquecer depois daquele serão de churrasco e maracatú, no logradouro da minha casa, no verão passado.
Um disco luminoso, vibrante e deliciosamente ingénuo que nos lembra ou revela uma outra música brasileira que não o samba ou a bossa nova, mais rural, mais suburbana, mas não menos importante e bem bonita.

Zunido


Quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009

Galandum Galundaina - Modas I Anzonas

, Cantigas e engenhocas, é, traduzindo do mirandês para o português, este excelente trabalho dos Ganlandum Galundaina que tem como valor primeiro o de salvaguardar o património musical deste país que tanto se esquece de o fazer. Usam réplicas dos instrumentos antigos, tais como a gaita de fole mirandesa, a flauta pastoril, a sanfona, a caixa de guerra, as conchas de Santiago (Compostela), as castanholas, pairando na fronteira ténue entre Portugal e Espanha.
Trata-se de um núcleo familiar que se reuniu com amigos e partilhando dos mesmos interesses musicais e culturais, puseram o projecto em marcha, já lá vão doze anos.
Quem já sabe algo de mim, reconhece que sou um entusiasta dos encontros da tradição com a modernidade. Este é um caso de pura tradição e um feliz exemplo de que o correr dos tempos vem demonstrar a modernidade de certos valores, neste caso sons, que nunca se perdem, antes se apuram.
Modas

Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2009

Kathryn Tickell & Friends - The Northumberland Collection

Sempre reparei nas críticas e referências aos trabalhos desta gaiteira, mesmo em tempos em que não dedicava maior e melhor atenção às músicas de outros mundos. Causa-me alguma raiva e vasta desconfortabilidade, neste caso e noutros com que me deparei e não parei, ter passado em branco sem espevitar a curiosidade auditiva que hoje é constante do meu universo vivente.
É sem dúvida uma magnífica tocadora das pequenas "northumbrian pipes", assim como do violino e da viola. Não sei se decalco o que outrora li, mas a sua forma encantatória de execução é sensual, delicada, que se não soubermos e atentos formos, logo diremos que uma formosa mulher move os dedos na gaita, aperta o fole no seu flanco e acrescenta corpo e alma ao instrumento, como se duma extensão sua se tratasse.
Northumbria é uma região do extremo norte da Inglaterra, fronteira com a Escócia, onde Kathryn nasceu e começou a tocar, ainda criança.
Não há lugar para o "mainstream" neste disco. São tradicionais da sua terra natal a que juntou um original seu. Já com uma dezena de anos, pela sua natureza é, contudo, uma obra intemporal.
A amostra que vos deixo na Caixinha de Música, tem como únicos protagonistas a própria Kathryn e Sean Barry na harpa celta. Os outros amigos estão espalhados pelas quinze faixas deste belíssimo disco.

K T & Friends

Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009

Ao fim de um ano de actividade e com mais de 11.000 visitantes, O Melonauta pode afirmar que os seus propósitos foram alcançados e suplantados até. Quero agradecer a todos que me ajudaram a pôr este blogue a funcionar, aos que me confiaram as suas opiniões e a todos que pelo Mundo fora me vieram visitar. Vou continuar a trilhar os caminhos que conduzem aos surpreendentes paraísos sonoros e deixar pistas para quem os quiser seguir.

Sandy Lopicic Orkestar - Balkea

Esta é uma banda de metais, mas não só. Incorpora vozes, cordas, aerófonos, madeiras e percussões. Resulta da união de músicos provenientes da desmembrada Jugoslávia que se instalaram em Berlim e fizeram da Alemanha o seu abrigo de exílio. Juntaram-se sérvios, bósnios, kosovares, austríacos e eslovenos e daí emanou um cozinhado de sons marcadamente oriundos dos Balcãs, com pitadas teutónicas, vozes búlgaras e marinhados em jazz acidulante.
Aqui se prova que o que os estupores desfazem com a guerra, ferindo de ignomínia o sentir profundo dos povos, a música conserta e une, em harmonia e afectos.
Um disco imperdível, empolgante, ora festivo, ora frágil, que me fez ir em busca de mais...

Balkea

Segunda-feira, 24 de Novembro de 2008

Ildo Lobo - Nós Morna

Na época em que se vivia o estoiro do pop-rock feito em Portugal, passava nas rádios um grupo de fusão chamado "Os Tubarões", cujo álbum "Tabanca" foi sucesso de vendas. Ildo era o seu vocalista. A banda manteve-se em actividade desde 1976 a 1994. Mas dois anos depois Ildo grava este disco soberbo, onde se entrega de alma e coração.
Ele é a voz da Morna, ele é a Morna! Ele interpreta como ninguém, com o seu canto expressivo e cálido, a dolência e o gemido desta forma musical de Cabo Verde.
Ildo Lobo é um daqueles músicos que nos entram pelos sentidos adentro, sem qualquer licença, e nos arrepia com a sua arte.
Nascido no mesmo ano em que eu nasci, pregou-nos a partida de ir embora mais cedo do que a sua imensa vontade de viver pedia. Esta é uma pequena forma de lhe dedicar o meu humilde tributo.
Descobri há bem pouco que, paralelamente, exercia uma actividade profissional similar à minha. Coincidências...

Ildo

Segunda-feira, 17 de Novembro de 2008

Trio Bulgarka - The Forest Is Crying

Ficaram com proeminente reconhecimento pela sua participação no marco da world music, Le Mystere des Voix Bulgares. Oriundas de várias regiões da Bulgária, conseguiram unificar as sonoridades características de cada uma delas e criar um som próprio e encantatório. Foi a sua aparição junto de personalidades como Kate Bush, ou a referência à sua música pelo beatle George Harrison, que me despertaram para este disco. Vi-as e ouvi-as há já quase vinte anos, num programa de televisão e fiquei estarrecido, magnificamente estarrecido!
Pelo que sei, e já com uma idadezinha muito apreciável, ainda vão andando cantando e em 2007 chegaram a actuar com os Trans Global Undergrond.
Para quem, como eu, é apaixonado pela música coral, vai com certeza ficar seduzido pelas polifonias, pelo cromatismo dessas vozes de excepção e pelas melodias que interpretam.

Trio

Terça-feira, 28 de Outubro de 2008

Four Men & A Dog - Shifting Gravel

Esta banda irlandesa que teve o seu maior reconhecimento na década pretérita, continua em actividade e lançando novos trabalhos em disco, mas dela só conheço este álbum que aconselho vivamente. Não é uma banda purista, na acepção da palavra, pois contamina as raízes da música irlandesa com sonoridades de bluegrass, country e algum mainstream, tendo também em alguns outros trabalhos, segundo o que li, abordado o jazz, a salsa e o rock. Bastante eclécticos, os rapazes. Para melhor entendimento convém ouvi-los e apreciar como conjugam em perfeição, guitarras e acordeões, violinos e banjos, pianos e percussões. Acrescentem um "pedal steel" e as vozes e o complexo sonora está pronto a ser servido.
Um Irish Coffee e um Bourbon, já agora...

Quarta-feira, 8 de Outubro de 2008

Vinicius Cantuária - Horse & Fish

Vinicius é um ilustre desconhecido que iniciou carreira na onda progressiva do rock, para alguns anos depois se interessar por vertentes menos óbvias, tendo optado por ir viver para os Estados Unidos. Foi por aí que se começou a embrenhar no Jazz e em cenas alternativas da música mais à frente. Trabalhou com Brian Eno, Laurie Anderson, Arto Lindsay, Bill Frisell, David Byrne e Ryuichi Sakamoto, entre outros. Nunca esqueceu as suas raízes e a prova disso é este disco onde mais de metade é dedicada à Bossa Nova. Não é um purista, claro, mas as novas roupagens com que veste a sua música só lhe emprestam um novo encanto.

Horse

Quinta-feira, 2 de Outubro de 2008

Kékélé - Congo Life

Sabiam que existia a rumba congolesa? Congratulações, se sim. Se não, estão nas exactas condições em que me encontrava antes de ouvir este disco deveras surpreendente para quem julgava que a rumba só era cantada e dançada nas Caraíbas. Para quem gosta de música africana e para quem gosta da música que se ouve lá pelo meio dos furacões. Composto por músicos com grande experiência, com trinta e quarenta anos de carreira em separado que se juntaram para criar este supergrupo que nos brinda com uma mistura de primeira. Ouvir os instrumentos e os sons peculiares dos dois extremos do Atlântico torna-se uma experiência deliciosa. Mas é rumba, disso não há a menor dúvida!

Congo Life

Segunda-feira, 22 de Setembro de 2008

José Mário Branco - Resistir é vencer

Desde que o conheço, desde "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades" de 1971, que o guardo como uma das minhas referências no plano da concepção artística e dos arranjos que faz para a sua música e para a dos outros. A figura romântica de lutador e resistente aos ditames retro-sociais e hipócritas também me fascina de alguma maneira.
No período pré 25 de Abril de 1974, ao lado de Fausto Bordalo Dias, Sérgio Godinho e claro, José Afonso, foi um dos pilares que me suportou junto à música portuguesa, quando grande parte da juventude da época se alinhava pela música anglo-americana.
Um dos melhores discos de 2004, obra maior e imperialmente ignorada pelos media, como aliás é o hábito inditoso a que estamos destinados.
A dedicatória por ele inserida no disco é bem o retrato da sua personalidade:
- "O título RESISTIR É VENCER, lema da luta do povo de Timor-Leste durante a sua resistência de 25 anos ao exército indonésio, foi escolhido à luz da percepção, adquirida durante uma estadia nesse novo país, de que ele ultrapassa, e muito, a mera palavra de ordem política. É um lema ético que assenta bem àqueles que, sendo poetas ou criadores artísticos, travam uma luta dura, desigual e ininterrupta contra os seus próprios limites e os do mundo que os rodeia. É porque a história, o discurso e o coração dos resistentes timorenses me ensinou isto que eu lhes dedico este álbum de canções."

Resistir

Sexta-feira, 12 de Setembro de 2008

Tuxedomoon - Cabin In The Sky

Banda americana com quase 30 anos de existência, com menores e maiores hiatos e actividades paralelas dos seus componentes. Saídos da cena pós-punk e new have, sempre se propuseram navegar por vários quadrantes, da pop ao jazz de fusão, do experimentalismo electrónico às performances multi-disciplinares ao vivo.
Assisti ao concerto de lançamento deste disco e para quem como eu desconhecia o trabalho do grupo, foi uma grata e deslumbrante surpresa. Ambiência, sonoridade, luz, côr, movimento plástico em doses de inequívoca elegância e experimentação.
Diferente e absorvente!

Cabin

Terça-feira, 2 de Setembro de 2008

Lura - Di Korpu Ku Alma

Depois das sempre curtas férias, o retorno aos trabalhos...
Uma portuguesa, nascida em Lisboa de pais de Santiago, cantando Cabo Verde sem ter lá vivido, utilizando um dialecto como se fosse a sua língua natal.
Maioritariamente repartido por Lura e Orlando Pantera nas composições e por músicos conterrâneos nos vários instrumentos, revela-se um disco luminoso, fresco e de embalo contagiante que retrata bem o país que adoptou para expressar a sua musicalidade.
Por altura do seu lançamento, tive a oportunidade de ver uma entrevista sua na televisão, ainda desconhecedor da sua arte, e fiquei inquieto na sua busca. Um pouco mais tarde, sofri um revés na sua apreciação ao vislumbrá-la de passagem num episódio dos inenarráveis "Morangos com açúcar", mas pelos vistos tratou-se apenas de um pequeno e lamentável acidente, depressa remediado...
Tal como o título diz, este é um disco feito com muita alma, em que amiúde o corpo não resiste.

Lura

Quarta-feira, 13 de Agosto de 2008


ENCERRADO PARA FÉRIAS


Sexta-feira, 8 de Agosto de 2008

Ani DiFranco - Evolve

Em 1999, Ani editou três álbuns, um deles em parceria com Utah Phillips, e todos sujeitos a apreciações abonatórias da crítica. Desconhecida para mim, logo tratei de procurar abeirar-me dos seus então mais recentes trabalhos e iniciei-me com To The Teeth. Andava eu, por essa altura, a navegar na Indie e na alternativa e aquilo veio na hora certa.
Peculiar, persistente e produtiva, são adjectivações que se lhe colam na perfeição.
Cedo se ligou às causas feministas com ardente empenho e as suas canções são um espelho disso mesmo. Por elas passam temas como o aborto ou a violação e sem mostrar estandarte, Ani nunca escondeu a sua bissexualidade.
Criou a sua própria editora, foi nela que lançou o seu primeiro disco em 1990 e desta forma independente se manteve até hoje.
A sua voz é versátil e colocadíssima, capaz de articular sem atropelar. A sua forma de tocar guitarra é distinta e baseada no fingerpicking, com harmonias ora céleres, ora delicadas e a sua música poderá definir-se como folk-rock alternativo.
Este seu disco é muito jazzy, funky e considero ser uma óptima montra das suas generosas capacidades. A amostra que vos deixo na minha Caixinha de Música, é o mais básico dela, voz e guitarra. Façam um pequeno exercício, imaginem a colocação sequencial de baixo, bateria, teclas, sopros e ficarão com uma produção própria a deambular na cabeça. Será que se harmonizará com a produção de Ani? Comparem!

Evolve

Quarta-feira, 30 de Julho de 2008

El Bicho - El Bicho

A par dos Ojos de Brujo, são das bandas mais atractivas no panorama vastíssimo da música dos nossos vizinhos espanhóis. Gente muito nova, mas com muito talento. Ostentam uma mescla de flamenco, rumbas, tangos, jazz, rock, pop e ritmos afro-latinos.
Ao vivo demonstram uma animação demolidora e mesmo algumas acrobacias algo exageradas do seu cantor e mestre-de-cerimónias, não chegam para deslustrar o brilhantismo do colectivo.
Para ouvir agora e ver na próxima oportunidade.

El Bicho

Terça-feira, 29 de Julho de 2008

Robert Wyatt - Cuckooland

Estamos perante um músico de árdua catalogação. Desde os anos 70, em que integrou os Soft Machine, banda que aliou o rock progressivo ao jazz, até aos nossos dias, Robert sempre manteve uma fértil e bem interessante carreira. Confinado, desde 1973, a uma cadeira de rodas, resultado de uma noite de excessos e a uma queda de um 3º andar, nem por isso a sua força de viver e de fazer música se desvaneceu. Continuou a tocar o seu instrumento, a bateria, apurou-se noutros, como o piano e a trompete, e compôs canções para quase uma quinzena de álbuns. Interessou-se por outras músicas e outras culturas, tocou com gente como Fred Frith, Mike Oldfield, Carla Bley, Phil Manzanera, Ryuichi Sakamoto, David Gilmour, Elvis Costello, Sting e Björk.
A sua música é de uma delicadeza atroz, simples e intrincada em simultâneo. E a sua voz de múltiplas oitavas é um desfiladeiro de emoção que parece querer transportar-nos ao seu âmago mais secreto.

Terça-feira, 22 de Julho de 2008

Oumou Sangaré - Worotan

A grande embaixadora do Mali musical, lutadora pelos direitos da mulher africana, especialmente coarctados naquela região do mundo. Conjugando a dolência com o festejo, a amargura com a perseverança, misturando uma plêiade de músicos e instrumentos, atinge uma diversificada teia de ambientes, onde os djembe, os bolon e as cordas dão o mote. À sua vez, seguem-se sopros e percussões. E depois as vozes, em coros polifónicos de bonita e singela coadjuvação.
Oumou é também conhecida pelo "pássaro cantor de Wassoulou" (histórica região a Sul do rio Níger) e a sua música vai beber às fontes profundas das tradições e dos rituais de caça do seu povo.

Worotan

Sexta-feira, 18 de Julho de 2008

Dervish - Spirit

Já com duas décadas de existência, os Dervish são uma das mais estimulantes e virtuosas bandas irlandesas. Basicamente dedicados aos tradicionais celtas, atrevem-se esporadicamente na composição e na reconversão de alguns temas de autor. Sinceramente, prefiro as suas interpretações bem urdidas e irrepreensíveis dos primeiros. É aí que o grupo se movimenta como peixe na água e nos presenteia com pedaços brilhantes da tradição.
A capa parece um outdoor publicitário de um destino turístico, mas o conteúdo, acreditem, é bem melhor.
Estiveram recentemente em Coimbra, como atracção, no festival Eurofolk'J. Quem lá esteve e assistiu pode e deve dizer aqui de sua justiça. O infotório agradece!

Spirit

Quarta-feira, 16 de Julho de 2008

Sigur Rós - Ágaetis Byrjun

A uma primeira audição, em fonte medíocre, com atenção dispersa mas suficientemente desperta, juntei as crónicas elogiosas da época e adquiri este cd para então, com total disponibilidade, nele me embrenhar.
Uma autêntica aventura nos confins dos gélidos mares!
Ainda hoje e sempre que o oiço, a pele se me arrepia, não de frio, mas de pura emoção.
Aconselho, a quem nunca o fez, a ouvir estas e outras músicas na penumbra ou no breu e libertar corpo e alma à corrente dos sons. Não vai ser difícil seguir pelos desertos gelados e pelo mar à volta da recôndita ilha. Lá encontrarão os ventos cortantes do deserto branco e o gotejar dos glaciares.
Uma obra-prima e um dos discos da minha vida!
Não será esta a soul branca?

Agaetis

Domingo, 13 de Julho de 2008

Natacha Atlas - Ayeshteni

Natacha é mais um daqueles frutos da miscigenação cultural e das paixões que lhe estão intrínsecas. Nascida na Bélgica de mãe inglesa e de pai com derivados marroqionos, egípcios e judaico-palestinos, após a separação destes, passou a viver e crescer na Inglaterra. Cedo começou a pôr em prática as dádivas genéticas, e das incursões na música das caraíbas, às experiências com os Trans-Global Underground, onde se tornou a voz da frente, logo a sua linha de prumo se foi definindo. Aos 35 anos de idade casou com o músico sírio Abdullah Chhadeh e mais se estreitou a rota entre o Oriente e o Ocidente.
Este álbum é um retrato disso mesmo, misturando as raízes de Natacha, as construídas e as herdadas, com as adquiridas na sua vivência europeia.
Esteve em Portugal, no ano passado, na Casa da Música do Porto, mas infelizmente não pude assistir ao concerto. Resta-me o prazer de a ouvir em disco e de a divulgar a quem não a conhece.

Ayeshteni

Domingo, 6 de Julho de 2008

Buena Vista Social Club Presents: Omara Portuondo

Não foi por negligência, nem por falta de motivação que demorei na actualização do blogue. Este inusitado e involuntário hiato, deveu-se a uma indisponibilidade do tempo de que necessito para manobrar todas as operações exigidas. As informáticas e as cerebrais.
Volto com esta Senhora, verdadeira diva e uma sobrevivente do Buena Vista Social Club. Dispenso as apresentações, pois suponho que um pouco mais ou um pouco menos, já a tenham ouvido. Este é um disco onde preponderam os boleros, pelo meio de outras canções cubanas e até de Gershwin.
Tive ocasião de a ver e ouvir, na sua única passagem por estas terras e foi das noites musicais mais comoventes da minha vida, fruto de uma prestação eivada de um dramatismo que só ocorre algumas vezes e que afecta totalmente um artista.
E como já vai sendo hábito, mais um mojito e outra corona gorda...

Omara